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A Matemática, a Poesia, a Gratidão e a Barbárie

Ontem eu vi num desses sites famosos da mídia uma foto da barbárie de Alcaçuz/RN. Como uma imagem vale mais do que dez mil palavras, de imediato, pensei: regredimos como seres humanos pelo menos uns cinco séculos. É melhor fugir deste assunto e falar de poesia e educação que essas duas ainda salvam milhões de vidas pelo mundo afora.

A Matemática, a Poesia, a Gratidão e a Barbárie

Eu fiz o ginásio e o científico em escola pública. O ginasial (pois é, sou desse tempo) foi no Colégio Estadual de Caruaru. Havia lá um professor de matemática muito temido em toda a cidade: Mestre Bione. Que Deus o tenha! Nunca fui um aluno brilhante em matéria nenhuma até porque minha inteligência sempre foi mediana. Mas se não fosse por obra e graça desse mestre, talvez eu tivesse ficado lá pela Batateira fazendo o que o povo do campo daquele distrito de Belém de Maria ainda faz: plantar batatas. Aliás, plantar ramas na terra preparada porque das ramas é que nascem batatas.

Eu ficava danado da vida quando chegava o fim do ano e ia buscar o resultado das provas, pois tinha sempre a mesma decepção: passava em tudo por média, menos na tal Matemática do professor Bione. Isso foi da 1ª até a 4ª série do ginasial. Um dia, acho que na 4ª série, após receber dele mais uma nota 4 sem dó nem piedade, resolvi contestar o Mestre, e ele, na maior franqueza deste mundo me respondeu: – comigo só passa por média quem sabe. Como não admirar um homem daquele?

Hoje, quando me lembro do Colégio Estadual ou passo em frente dele, só me vem na mente dois nomes: o do professor José Bione de Araújo e do professor Kermógenes Dias de Araújo, este último que sabia tanto de português e literatura que se tornou um grande crítico literário. Que orgulho sinto de ter estudado num colégio do Estado com um professor que era crítico de literatura e com outro que abria a cabeça do burro para colocar a matemática lá dentro como se fosse numa cirurgia!

Mas apesar dos resultados pífios com o professor Bione, certa vez eu resolvi homenageá-lo. Encontrei-o no corredor e disse-lhe: professor, eu não consigo passar por média, não obstante sou imensamente grato ao senhor por tudo que tenho aprendido. E coloquei a mão no bolso retirando um papel escrito que lhe entreguei. E ele: – o que é isso? – É uma poesia, professor, chama-se ‘poesia matemática’, de um poeta que assinou Vão Gogo. Tempos depois vim saber que esse Vão Gogo era um pseudônimo do genial Millôr Fernandes. Ele pegou o papel, guardou e saiu apressado.

Dois dias depois, por ocasião da aula de encerramento do ano letivo, ele retirou do bolso aquele papel que tinha recebido de mim e declamou em voz alta para toda a turma a ‘poesia matemática’:
“Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos romboides, boca trapezoide,
corpo retangular, seios esferoides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
Quem és tu? Indagou ele
em ânsia radical.
Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.”

Conclusão minha: ouvindo falar pela primeira vez, acho eu, nesse tal de ‘triângulo amoroso’, os compositores românticos de então (começo da década de sessenta) inspiraram-se em Millôr (coitado dele!) e criaram a música brega, com dor de corno pra lá e dor de chifruda pra cá. Porém Millôr morreu sem saber disso porque, do contrário, pela decepção, ele faria com esse pessoal o que vários presos de Alcaçuz fizeram com seus companheiros de presídio. Que tempo de horror vivemos, hein Millôr? Essa tragédia com requintes bárbaros de extrema crueldade me força a lembrar das sábias palavras do poeta urbano Miró da Muribeca:

‘Deus foi perfeito em não deixar nenhuma chance pro homem. Seja no Restauração ou no Santa Joana.’ Troque Restauração e Santa Joana por Alcaçuz e Anísio Jobim que dá no mesmo. O poeta está certo.

O poeta Miró se referia (explico para quem não vive na capital de Pernambuco) a dois hospitais que ficam na mais importante avenida central que rasga o Recife, mas separados por um enorme fosso real (um canal fétido) e outro social (representado pela desigualdade porque um é público e outro privado).

Tanto o fosso real quanto o fosso social, em Manaus, Recife ou Natal, aprofunda-se com a desastrosa ação de nossos políticos e explica muita coisa neste país grande, que não é grandioso, e talvez nunca o seja!

Por Abílio Neto

2 comments

  1. Cleanto Farina Weidlich

    … o teu relato sobre os Mestres Inesquecíveis, principalmente o Professor Bione, tem um teto cuja altura ou pé direito, não alcança a minha mediana intelectualidade. Igual, mesmo sem compreender na íntegra tudo o que nele se encerra, envio ao meu admirado articulista, o meu humilde aplauso, … compartilhei no Face, onde expressei o que senti, … ‘quem dera fosse ficção’, … Alvíssaras!

    • Prezado amigo Cleanto,

      Obrigado pelo comentário. Você é um homem inteligentíssimo, então, acho que entendeu tudo. Talvez não queira acreditar na triste realidade em que vivemos. Um grande abraço do,

      Abílio Neto

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