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A flor, a quadrilha e a censura

FLOR DA IDADE, música inesquecível de Chico Buarque, de 1973

A flor, a quadrilha e a censura

Flor da idade é uma das melhores músicas de Chico. Fez parte da trilha sonora do filme “Vai Trabalhar, Vagabundo”, de Hugo Carvana, lançado em 03/12/1973, na fase mais tenebrosa da ditadura de 1964. Sobre a música, o livro “Gol de Letras” esclarece:

“Era imprevisível o que aconteceria a uma canção enviada à Policia Federal — e todas, evidentemente, tinham que passar por lá. Quase sempre era preciso argumentar e negociar com os censores. No caso de Chico, isso era feito através dos advogados da gravadora, porque ele, por princípio, se recusava a dialogar com a censura. A batalha, algumas raras vezes, dava certo. Na parte final de ‘Flor da idade’, por exemplo, baseada no poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, uma vertiginosa ciranda de amores acaba por acasalar dois homens, Paulo e Juca, para o escândalo das autoridades. Em carta aos advogados, Chico citou o dicionário para argumentar que o verbo amar nem sempre tem conteúdo erótico. A música passou.” (Humberto Werneck, Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989)

Mas, no meu modo de entender, havia naquela letra uma frase de conteúdo mais grave para a tão decantada moral da família naquela época: “Pedro que amava tanto que amava a filha”.

E também não podemos esquecer: “A mesa posta de peixe deixa um cheirinho da sua filha”, na certa em alusão ao cheiro da genitália da jovem. Cheirinho de bacalhau como se dizia na época. Além disso, fazia apologia ao fresteiro.

A música passou e a Censura, como se viu acima, era um monstro sem cabeça. Em disco de Chico, ‘Flor da Idade’ foi lançada primeiramente em 1975.

Chico Buarque continua como um dos maiores compositores da MPB de todos os tempos. Ele é genial, mas tem o direito de se enganar ainda com Lula e o PT. A sua obra é, sem dúvidas, bem maior do que sua opção política!

LETRA DE FLOR DA IDADE

A gente faz hora, faz fila, na Vila do Meio Dia
Pra ver Maria!
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia

A porta dela não tem tramela, a janela é sem gelosia
Nem desconfia!
Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor

Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha!
A mesa posta de peixe deixa um cheirinho da sua filha

Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha!
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua!
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua

Despudorada, dada, a danada agrada andar seminua
E continua!
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor!

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo que amava Juca que amava Dora que amava…

Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava…

Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha!

Por Abílio Neto

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