quarta-feira , fevereiro 22 2017
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Saia da frente que o carnaval já passou

Por Abílio Neto

Saia da frente com seu resto de carnaval que eu quero passar com meu forró. Agora o assunto é outro: festa matuta e de São João. Sou de um interior que, na minha mocidade, casamento matuto de verdade era uma festa para lá de boa. Era uma gostosura! Mas coitadas das noivas pobres do agreste pernambucano porque quando existia na paróquia um padre metido a besta, as bichinhas tinham duas opções de ir até a igreja: 1) A pé, com um cortejo seguindo os noivos; 2) Montadas em cavalos, pois muitas daquelas donzelas casamenteiras sabiam montar muito bem em cavalos e em homens. Santinhas! Havia a alternativa de alugar carro de bois para levar os noivos até a porta da igreja.

Noivos puxados pelo carro de boi
Noivos puxados pelo carro de boi (Foto: Esperança de Ouro)

Ainda hoje me lembro da primeira festa que eu tirei uma dama para dançar. Eu tinha uns 12 anos e foi num casamento de uma filha de um compadre do meu pai. O padre foi celebrar a cerimônia em casa. Depois do casório, por volta de meio dia, foi iniciada a comilança: bode, carneiro, churrasco de boi, paneladas de peru cozido, galinha ao molho de cabidela à vontade e muita bebida quente porque naquele tempo pelos sítios não existiam geladeiras. A luz de Paulo Afonso chegou às cidades nordestinas em 1955, mas os vilarejos e os sítios se iluminavam na base de candeeiros, os chamados alcoviteiros, aqueles de pavios enfiados no Querosene Jacaré.

O povo se empanturrava de comida e no dia seguinte era bastante comum em muita gente as frequentes idas ao “banheiro” em função das caganeiras que contraíam pelo pecado da gula. Lá em São Joaquim tem até um dito popular assim: “pobre morre pela boca”.

Depois da comilança, havia o forró dos noivos. A festa ocupava a tarde toda e no começo da noite, os noivos rumavam para suas casas. Eles estavam doidos por isso mesmo!… É que naquele tempo o noivo não costumava jantar a noiva antes, isso com raras e honrosas exceções! Certa vez me disse meu avô que um noivo não passou muito bem na sua primeira noite de lua de mel porque a noiva de vez em quando afrouxava e o fedor não havia cristão, judeu ou muçulmano que aguentasse. O pior foi que naquela noite chovia muito e o sofrido marido quando esticava o lençol de casal e se cobria todo, a noiva soltava mais uma bufa e ele se descobria de vez. Ao se descobrir, como a casa era nova e as telhas não tinham sido bem colocadas, vinha um pingo d’água grosso e caía bem nos peitos do coitado. E ele ficou o resto da noite naquele troca-troca: cobria-se e aí sentia o “cheiro” do peido da amada, ou descobria-se e lá vinha novamente aquele irritante pingo. Porém houve uma hora em que o infeliz não aguentando mais, acordou sua parceira assim:

-Ô Maria, eu só queria que o dia logo amanhecesse!

-Por que, benzim, não gostou da nossa lua de mé?

-É pra você ir obrar no mato e eu consertar a peste dessa goteira.

Não estranhe, prezado leitor, mas as casas do interior não tinham W.C. Era num buraco no chão no meio do mato, ao redor da casa, que as pessoas defecavam, com os saguis testemunhando de cima das árvores aquelas cenas indiscretas. Não havia sanitarista para orientar o povo. Hoje o interior está evoluído: tem até vaso Celite nas casas.

Tirando esse aspecto desagradável que eu abordei, não havia coisa melhor do que dança em casamento matuto. Geralmente era um sanfoneiro de oito baixos com o auxílio luxuoso de dois cabras, um para o triângulo e outro para a zabumba. Meu pai, que era bom de tililingue, às vezes assumia o primeiro instrumento para o ritmista ir beber, comer ou vadiar.

Mas voltando àquele casamento, lembro que a menina que eu dancei tinha 14 anos e eu 12, de maneira que meu nariz ficava na altura dos seios dela. Ela de vestido verde bem curto, toda suada, mas o cheiro que eu sentia era de Água de Colônia Regina. Ah, que cheiro bom! Foi a primeira vez que me apaixonei. Era filha de outro compadre do meu pai e o velho até reclamou:

-Compadre Aprígio, seu filho faz mais de uma hora que dança na latada grudado na minha filha Judite, mais parecendo um carrapato numa vaca.

-Não se preocupe, compadre João, ele ainda é uma criança.

Depois fiquei na sofrência porque ela me largou e foi dançar com um matuto grandalhão. Também foi a primeira vez que senti ciúme na vida.

Sanfoneiro de 8 baixos Manoel Maurício
Sanfoneiro de 8 baixos Manoel Maurício

Aproveitando o ensejo casamenteiro, quero prestar uma modesta homenagem ao sanfoneiro Manoel Maurício, de quem pouco se sabe. Morou em Caruaru, saiu e foi para Bezerros, porém diziam que ele era alagoano. Ele me lembra aqueles sanfoneiros que tocavam nas festas de casamentos. Dancei forró ao som de sua sanfona de oito baixos em Caruaru na década de 60. Foi o cabra de dedos mais ágeis que vi em toda minha vida. O Mestre Dominguinhos era fã dele. Seu Manoel era também compositor e dos bons! Infelizmente em seus discos suas músicas aparecem com seu nome sempre ao lado de uns picaretas que eram radialistas, donos de lojas de discos ou distribuidores. É uma coisa velha e triste isso. Eu identifico picaretas que se aproveitavam dos verdadeiros compositores, desde o Ceará até a Bahia. Gente que se valia do talento de outrem para se dar bem. É por isso que dizem que brasileiro é tão bonzinho!

Sem mais conversa porque hoje é quarta-feira de cinzas e tem folião que ainda está todo desconjuntado e com preguiça até de comer papa, que eu vou colocar uma música de Manoel Maurício para tocar. É para dizer que o carnaval de 2015 virou cinzas e São João se aproxima, acrescentando que talentos como o dele jamais serão esquecidos. Pelo menos até quando eu ainda consiga manejar um teclado de computador.

Salve Manoel Maurício, grande nome do forró pé de serra do Nordeste!

https://soundcloud.com/ab-lioneto/manoel-maur-cio-alagoas

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