quinta-feira , fevereiro 23 2017
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Reinaldo Gianecchini narra sua carreira e a luta contra o câncer

 

Ao final do sétimo dia ainda não era um mundo novo que havia sido criado, mas uma medula inteira eliminada e, no lugar dela, células-tronco saudáveis injetadas no paciente. A partir daquele ponto — a última etapa da batalha contra um câncer linfático — não restava qualquer outro procedimento — a não ser torcer para que o potencial de eficácia científica se aliasse à metade positiva do imponderável e juntos fizessem com que o implante de medula “pegasse”. Ou seja: que o corpo de Reynaldo Gianecchini reagisse bem à infusão de células sadias, que estas fossem capazes de criar uma nova medula e, enfim, fazer com que o ator desse adeus ao mal que o tomara oito meses antes, em julho de 2011.
Mas o último round não foi fácil. Debilitado, Gianecchini tinha a sensação de que transportava uma bomba atômica dentro de si, e de que a radioatividade fritava suas entranhas e queimava seu corpo dos pés à cabeça. Após passar uma semana isolado num quarto especial, sem qualquer fresta de luz, o ator conta que tinha um único desejo:
— O que eu mais queria depois de tudo era poder tomar um copo de água e não sentir que estava engolindo ácido. Só isso — conta Gianecchini.
Ou melhor, Giane. O apelido, antes reservado aos íntimos, agora serve de título à biografia “Giane — Vida, arte e luta”, que chega às lojas com grandes chances de se tornar um dos best-sellers do ano. Escrita pelo jornalista Guilherme Fiuza, a obra narra os momentos mais luminosos e obscuros atravessados pelo ator em 40 anos de vida.
— Eu me desnudei absolutamente para contar essa história — diz. — Nada foi evitado. Não houve nenhum momento em que eu dissesse “a partir daí nós não vamos”. Contei a minha vida inteira para o Fiuza.
Sim, contou. Mas ao mesmo tempo que nada foi evitado, “nem tudo é explícito”, diz Giane.
— Não entramos em detalhes que não são relevantes, e que poderiam gerar o que a gente não quer, que é alimentar a indústria da fofoca, do interesse por coisas pequenas que seriam deselegantes com as pessoas envolvidas — diz. — Aqui não tem fofoquinha ou histórias que alimentariam interesses fúteis. Há um limite de intimidade do meu casamento, por exemplo, e das pessoas com quem convivo. Fora isso, fui até onde tinha de ir mesmo.
Mas nem tudo foi tão fácil. A passagem descrita no início desta reportagem, por exemplo, foi um momento em que Giane pensou, sim, duas ou mais vezes antes de aceitar e entender a importância de descrevê-la sem pudores. Autor e biografado tiveram de estabelecer o consenso. E o resultado é um retrato em alta definição do ápice daquele suplício vivido pelo ator após o transplante — descrito minuciosamente no capítulo “Bombardeio na caverna”.
— Ele chegou a questionar, disse que talvez não fosse válido descrever algo tão terrível — conta Fiuza. — Mas eu disse a ele que era legítimo e oportuno não negligenciar o momento mais difícil, justamente porque ele havia conseguido ultrapassar tudo aquilo. O Giane realmente atravessou o inferno, mas conseguiu sair de lá.
Mas “Giane” não é um livro sobre a superação da doença.
— Acertei com o Fiuza confiante de que o resultado não seria um livro babaca de autoajuda — diz o ator, em relação ao autor de “Meu nome não é Johnny” e “Bussunda — A vida do Casseta”.
“Giane” é a história de uma vida inteira até a chegada de um momento-limite, em que a vida do biografado é ameaçada. Por isso, mais que um drama médico em que um heroico paciente irrompe e domina a cena, o que se lê é mais: são as aventuras de um menino nascido e criado em Birigui, no interior do estado de São Paulo, que torna-se um modelo requisitado internacionalmente e, em sequência, um dos maiores galãs da TV brasileira. Fiuza detalha a crise existencial do garoto decidido a romper com a linhagem familiar de exímios jogadores de basquete, o dilema do vestibulando fracassado que chega a entrar no exército mas escapa na última hora, assim como a sua mudança para a cidade grande e os primeiros passos para a realização de um sonho alimentado desde cedo.
— Eu sempre soube que ia conhecer o mundo com a minha profissão — diz o ator, em um momento do livro.
Então está lá a primeira viagem para a China, em que um despreparado estudante de Direito se apruma em roupas cafonas, ganha dinheiro e perde tudo na hora de deixar o país, a constante inadequação do modelo interiorizado que evitava festas, orgias e até a curiosidade da top e ex-primeira dama francesa Carla Bruni. Há também o salto no escuro na carreira de ator, em meio ao despudor artístico do Teatro Oficina de José Celso Martinez Correa, a estreia catastrófica como galã da Rede Globo em “Laços de família”, todo o risco e a provocação de um trabalho indefinido até a última hora na peça “O príncipe de Copacabana”, sob a direção de Gerald Thomas, entre outros percalços, como o recente baque financeiro constatado após problemas administrativos em seu escritório. Mas também estão lá os amores, como o vivido ao lado da jornalista Marília Gabriela, assim como os triunfos e as viradas profissionais — e elas são muitas.
— Foi em “Belíssima” (2005) que o Giance começa a ser reconhecido, por ser capaz de fazer comédia, e em “Passione” (2010) que tudo se consolida, que ele mostra que pode fazer de tudo, inclusive um vilão — diz Fiuza.
E o ator comenta:
— Esse livro conta exatamente quem eu sou. Não é um livro feito para me enaltecer, para falar que eu sou um cara fodão, incrível, quase um santo. Nada disso. Revelo defeitos, fraquezas, momentos politicamente incorretos. Queria mostrar o ser humano, dentro de um viés psicológico, tudo que ele passa, as viradas, mostrar que eu tive de batalhar muito para conseguir estar aqui e conseguir o que conquistei. Não poderia, por exemplo, ter feito a minha última peça há dez anos.
Ele refere-se a “Cruel”, texto de August Strindberg que precede e encerra o périplo do ator contra o câncer. Foi durante os ensaios da montagem, em meados de 2011, que o ator começou a sentir-se mal. Com suas frequentes internações, o espetáculo teve de ser cancelado logo após a estreia. E é a partir daí que Fiuza constrói uma obra em que o suspense é dominante — mesmo que o leitor saiba do final feliz que o espera. São muitos os momentos de tensão e de surpresa, porque são igualmente muitas as revelações da acidentada travessia até o lado mais saudável da vida. Ao longo de oito meses, Gianecchini não venceu “apenas” todas as etapas convencionais contra um câncer ultra-agressivo e raro, mas também uma hérnia inguinal operada por engano no primeiro diagnóstico, uma parada cardiorrespiratória ocorrida durante a implantação do cateter que possibilitaria a sua quimioterapia, uma misteriosa doença originada por um fungo instalado silenciosamente em seu corpo desde a infância, além de uma síndrome raríssima que o atacou num momento crucial, em que sua vida definitivamente ficou por um fio.
— Ele teve uma coisa raríssima conhecida como Síndrome de Pega justamente quando estava completamente sem medula, sem qualquer defesa imunológica. Ele podia ter morrido ali — diz Fiuza.
Mas não foi o que aconteceu. Em março de 2012 o ator estava curado e de volta à cena na peça “Cruel”. E agora, enquanto vive o motorista Nando na novela “Guerra dos sexos”, Gianecchini não esconde o prazer em estar de volta à rotina de trabalho, mas ao mesmo tempo não nega que a realização ou o reconhecimento artísticos já não são mais dominantes como já foram um dia.
— Não penso tanto mais no próximo passo, nem faço mais muitos planos artísticos. Mais do que a carreira, que eu adoro, o que mais me mobiliza hoje é criar uma fundação de apoio à criança e ao adolescente. Esse livro será o ponto de partida dessa instituição. É apenas por isso que eu aceitei fazer. Todo o dinheiro que entrar vai ser revertido para que ela possa existir. A minha necessidade de prestar solidariedade é cada vez maior e urgente.

Da Agência O Globo

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