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Meu Coração é um bar vazio tocando Belchior

“A arte é mais importante quando levanta questões do que quando resolve”

Quando Belchior foi oficialmente dado como sumido, em agosto de 2009, de repente ele passou a ser uma espécie de herói para muita gente. Abandonou a mulher, dois filhos adultos do casamento e mais uma filha por fora a quem pagava pensão, sem contar outra filha que tinha no Ceará cuja mãe não o incomodava. De um dia para o outro, largou dois carros em estacionamentos, roupas, livros, discos e deu uma banana geral para todos: empresário sedento por dinheiro, fãs que minguavam a cada show e até familiares (do Ceará e São Paulo). Sumiu sem deixar nenhum vestígio safando-se da monotonia: agenda esvaziada de shows, inúmeras contas que teria de pagar com dinheiro de cachês escassos, processos na Justiça e até sexo sem mais nenhum encanto com a parceira de 35 anos de vida em comum. Juntando tudo isso, não daria em você leitor, na situação dele, vontade de picar a mula também? Belchior fez o que muitos gostariam de fazer e, na fantasia de quem ficou, achavam que ele teria ido para algum lugar encantador, aonde pudesse banhar os bigodes ao sol das manhãs e depois mostrar seu vozeirão às latino-americanas do Sul. É uma pena que tudo não tenha ocorrido assim. Com sua morte inesperada, não poderá mais ser cobrado por dívidas e espera-se que não o chamem mais de vilão.

Este cantor original (e compositor brilhante) foi enterrado em 02/05/2017 em Fortaleza, lugar escolhido para ser sua última morada. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (maior nome da música brasileira conforme dizia ironicamente), ou simplesmente Belchior, é inigualável sobre um ponto de vista único na MPB: jamais a sua imagem de artista pôde ser associada a um produto vendável qualquer. Sob esse prisma Belchior disse adeus como uma verdadeira joia rara no cenário artístico nacional porque ele não fez concessão alguma nem às gravadoras e muito menos à indústria do entretenimento. A frase que intitula esta crônica que o homenageia não é minha, mas de Diego Moraes, um dos seus fãs pelo mundo.

Lembremos que a indústria cultural quis pintá-lo de grande cantor romântico nacional, brega em outra palavra, e sujou. Nessa visão, ele seria um Oldair José melhorado. Mas Belchior era culto e se tivesse esse rótulo, não venderia discos. O povo, ora o povão, que é sempre metido a entender de tudo, achava-o um cantor fanhoso e autor de frases de difícil compreensão. Melou as cuecas e calcinhas ao imaginar que ele fosse um novo Reginaldo Rossi. Alguns músicos e críticos musicais diziam (nem sempre entre quatro paredes) que Belchior era um compositor de acordes limitados, uma espécie de Geraldo Vandré piorado. Se os críticos sempre ‘quebram a cara’ diante de um talento insofismável, perante Belchior se lascaram de uma vez! O cara era bom demais. Se Caetano Veloso reconheceu isso sempre, o resto que se dane. A classe média alta também fazia beicinho para ele e no cúmulo do machismo e da ignorância, achava algumas de suas letras de orientação homossexual, assim como nos seus shows, via como algo estranho aquele giro de 360º graus que dava e se tornou marca registrada quando se apresentava com bandas.

Nós, os jovens de uma maneira geral, na década de 70, sobretudo os universitários, é que podemos entender o real significado de suas letras cortantes e dilacerantes, seus recados diretos ou indiretos e até aquelas críticas desorientadoras conforme palavras do próprio Caetano, um dos autores por ele criticado. E mesmo nós jovens em 70, seus verdadeiros fãs, ‘viajávamos’ muito procurando entender o que este cearense de Sobral quis verdadeiramente transmitir em algumas de suas poesias musicadas. O homem era erudito, recitava poemas em latim, lia desesperadamente e falava cinco idiomas. Se fosse indicado para o Prêmio Nobel de Literatura, numa homenagem póstuma, após o precedente aberto para Bob Dylan, não seria de maneira alguma imerecido.

Belchior e o jornalista Juremir Machado da Silva

Depois da morte do artista, algumas feministas (sempre oportunistas) ficaram de grelo duro e não perderam a oportunidade de meter o cacete no compositor. Não cito o nome de uma justiceira desse movimento escroto que escreveu esta insanidade abaixo reproduzida para não lhe dar cartaz, mas, por favor, leiam o recorte:

“Quando desapareceu, em 2008, Belchior deixou quatro crianças sem pai. Segundo a reportagem, o artista parou de pagar as pensões alimentícias (algumas delas no valor acumulado de 7 mil reais) e fugiu com uma amante, que mais tarde se tornaria sua esposa. Depois de algum tempo, ele passou a ser procurado pela polícia (já que, no Brasil, não pagar pensão alimentícia dá cadeia), mas nunca foi preso. Mesmo assim, Belchior não perdeu seu posto de ídolo cult. Ao contrário: com seu sumiço, ganhou status de herói. Seus fãs idolatravam sua atitude de desapego material, admiravam sua capacidade de viver sem dinheiro e começaram a ver seu modo de vida como algo especial, uma espécie de fuga do capitalismo. Belchior, intelectual auto exilado – além de bonitão -, se tornou uma espécie de ‘mártir’ da esquerda contemporânea. Só se lamentava, até a sua morte, o fato dele não lançar mais discos. Enquanto isso, as mulheres deixadas para trás com seus filhos para criar não mereciam (e ainda não merecem) a menor atenção. Em nossa sociedade, os homens não são cobrados por seus crimes, pelo seu sexismo, pelos abusos que cometem.”

Crianças, mas que crianças, sua tonta? Veja esta foto abaixo dos dois filhos do casamento oficial de Belchior e analise pela idade se eles ainda carecem ou careciam de pensão? Parecem bem crescidinhos, não acha? Há quem afirme que o sumiço dele se deu em função de que, de repente, a útil da sua esposa queria arrancar-lhe tudo. Se realmente aquilo se deu assim, a prática das mulheres que tem um marido como esteio profissional acontece dessa maneira, sempre em busca de um juizado de família para obtenção de uma pensão ou de uma herança. Há ainda duas filhas fora do casamento reconhecidas por ele. A mãe de uma delas, psicóloga no Ceará, não se incomodou por pensão. Hoje a jovem tem 20 anos. A outra filha, Bruna, ele teve com uma fã (Denise) de São Carlos/SP que, ao que se sabe, atualmente tem 23 anos. A essa ele pagava pensão, mas parou de pagar depois do sumiço e aí a coitada se envolveu até no tráfico de drogas em 2010. A viúva oficial, ao que sugere o noticiário informal, queria garantir o dela antes do evento morte do cantor a fim de preservar o direito aos bens somente para si e seus filhos, ignorando a produção independente do marido. Será que não foi por isso que ele se revoltou?

Filhos de Belchior, Mikael e Camila se despedem do pai. Família do artista cearense esteve reunida em espaço dedicado às últimas lembranças do cantor e compositor
Filhos de Belchior, Mikael e Camila se despedem do pai. Família do artista cearense esteve reunida em espaço dedicado às últimas lembranças do cantor e compositor – Foto: Mateus Dantas

Em 2005, próximo de completar 59 anos, Belchior conheceu Edna Assunção de Araújo, produtora cultural de 46 anos, que logo mudou seu nome para Edna Prometheu. Ele abandonou a família ao deixar o flat onde morava com a mulher Ângela Margareth Henman Belchior e os dois filhos, na zona sul da capital paulista, no final de 2006, quando os problemas financeiros dele ficaram mais intensos. Também deixou para trás dois carros valiosos: uma Sonata Hyundai branca, deixada no Aeroporto de Congonhas e uma Mercedes, esta largada em um estacionamento próximo ao seu apartamento. Oficialmente se diz que Ângela está divorciada dele e com patrimônio próprio advindo da partilha de bens do casal. Quem ele procurou depois disso? Edna. O que ela prometeu a ele? Ninguém sabe. Alguém é capaz de matar o enigma e indicar por que Edna juntou Prometheu ao seu nome? A resposta está numa música de Belchior.

Um dos carros abandonados pelo artista

Um amigo de Belchior, o artista plástico cearense conhecido por Tota falou o seguinte sobre Edna: “Depois dela, sua vida só andou para trás”. O antigo empresário dele, Jackson Martins também não deixou por menos: “Essa figura nefasta está fazendo uma lavagem cerebral nele”. É claro que ele falaria isso. Belchior deixou de lhe dar lucro. Mas será que essa senhora que tem hoje 58 anos fez Belchior sair da aparente normalidade em que vivia e juntou-se a ele somente para levarem uma vida de trambiqueiros (quando se hospedavam em hotéis e pousadas) ou viverem de favor (quando ocupavam casas de amigos)? Não dá para dizer que apenas eles juntaram suas utopias. Isso é muito simplório para explicar um caso de fuga tão sério! Haverá de existir um grande laço espiritual nisso tudo, além da cumplicidade amorosa. Belchior nunca foi um tolo que se deixasse manobrar. É mais um enigma a ser esclarecido até porque a materialidade de Belchior está explícita em vários de seus versos, a exemplo desses: “nada é divino, maravilhoso, sagrado, misterioso!” Mas quem quiser condená-la que atire a primeira pedra.

A mim, esta história de que Belchior fugiu no auge não convence. Certa vez o seu produtor e secretário Célio Silva foi chamado para socorrê-lo financeiramente quando Belchior foi ameaçado por um pedreiro que lhe cobrava dívidas antigas. De concreto, surgiu o seguinte: Belchior explicou a Célio o desejo de aumentar o cachê dos seus shows. Disse que Zeca Baleiro ganhava mais dinheiro do que ele e achava isso absurdo. Na verdade, os chamados ou convites para apresentações minguaram muito. De 15 apresentações mensais, ele passou a ter dificuldade para encontrar contratantes dispostos a tê-lo no palco por pelo menos uma vez ao mês. Esse mesmo Célio o colocou na Justiça e a causa que ganhou, após as devidas correções, ultrapassou R$ 1 milhão. Então, aí está a verdade: Belchior sumiu porque suas dívidas aumentaram, seus bens estavam ameaçados e seus shows não despertavam mais interesse na leviana plebe rude.

Agora vamos falar um pouquinho de como Belchior apareceu para o Brasil: Belchior trancou a matrícula no 4º ano do curso de medicina em Fortaleza e se mandou para o Rio de Janeiro, cantou na ‘barra pesada’ e venceu com a música ‘Hora do almoço’ um festival universitário de âmbito nacional. Era o começo. Jorge Melo foi um dos primeiros a emigrar. Ednardo e Fagner foram depois. O Ceará invadia o Rio, mas logo começaram as dificuldades da luta contra os rótulos. Depois dos baianos e novos baianos, a tendência era classificar a partir da procedência. E foi difícil convencer que não se tratava apenas de um grupo cearense, mas de pessoas que embora tendo nascido no mesmo lugar, e apesar das dificuldades (e afinidades), seguiam caminhos diferentes e tinham recados diversos a dar. Nada mais verdadeiro do que isso que escreveu, em 1977, no Jornal da Música, do Rio, o escritor, professor e crítico Gilmar de Carvalho. Mas o nome “Pessoal do Ceará” pegou.

No artigo que escreveu recentemente para o Estadão, homenageando Belchior, Caetano Veloso disse o seguinte: “Eu amava (e amo) Mucuripe. A frase musical que sustenta o verso ‘Vida, vento, vela leva-me daqui’ é tão bela e adequada que dois dos maiores cantores do Brasil não conseguiram chegar à sua altura. Mas Mucuripe era uma canção ‘clássica’, atemporal. Ela trouxera os cearenses ao reconhecimento público, mas não representava ruptura. As músicas que Belchior assinou sozinho fizeram isso. Todas as citações a canções nossas que estavam em trechos de canções de Belchior me agradavam por estarem dentro de um timbre criativo sempre rico e instigante. Muitas entrevistas de Fagner desmereciam a força estética que era evidente em Mucuripe e em Belchior.”

O que Caetano talvez não saiba é que meio mundo de gente do Ceará diz que a canção Mucuripe era somente de autoria de Belchior, mas Fagner começou a cantá-la fazendo adaptações e daí se sentiu no direito de reivindicar coautoria. Explica-se assim a dificuldade que tinha Fagner em falar da música de forma convincente, porém Caetano, sagaz que só um filho da Dona Canô observou bem. Como é que uma pessoa se enrola todo para falar sobre um filho?

É preciso ter em mente que fazer canções foi a forma encontrada por este cearense talentoso para exercitar sua luminosa mente. Disse Alberto Sartorelli em iluminado artigo que “Belchior demonstra uma compreensão total do processo de nivelamento – por baixo – da cultura por parte da indústria cultural, dificultando demasiadamente a ocorrência de composições com alto grau de complexidade – os artistas que se propõem a tal correm sempre o risco da miséria material e do esquecimento.” Isso nos dói profundamente, mas é verdadeiro!

Conforme já mencionei acima, a materialidade de Belchior está exposta em suas canções e constitui um verdadeiro esteio da sua música. Vejamos estes versos: “Eu não estou interessado em nenhuma teoria/ em nenhuma fantasia/ nem no algo mais/ nem em tinta pro meu rosto/ ôba ôba ou melodia/ para acompanhar bocejos/ sonhos matinais/ eu não estou interessado em nenhuma teoria/ nem nessas coisas do oriente/ romances astrais/ a minha alucinação é suportar o dia-a-dia/ e meu delírio é a experiência/ com coisas reais” (Da música ‘Alucinação’, do disco de mesmo nome, de 1976)

Numa entrevista a Juarez Fonseca em 1977, Belchior confessou: “Olha, eu gostaria de dizer coisas agradáveis às pessoas e de cantar o amor. Mas eu não sou mensageiro de coisas agradáveis.” Mas você foi Belchior. São tantas coisas lindas da sua autoria que nos ficaram de lembrança e elas falam de amor! Nessa mesma entrevista ele disparou sobre seu conceito de arte: “A arte é mais importante quando levanta questões do que quando resolve. Por quê? Porque não é função da arte resolver, mas problematizar, questionar. Não compreendo arte verdadeira conformada. Como ela está no cerne da vida, questionando a vida, tem que ser um momento de rebeldia, tem que ser inconformada, tem que ser fora das convenções, violenta, tem que ser um produto altamente explosivo. A arte não pode ser um produto inócuo”.

E a arte de Belchior nunca foi e nem será inócua. Aqui ela pode ser avaliada por estes versos: “Não quero regra nem nada/ tudo tá como o diabo gosta, tá/ já tenho este peso que me fere as costas/ e não vou, eu mesmo, atar minha mão/ o que transforma o velho no novo/ bendito fruto do povo será/ e a única forma que pode ser norma/ é nenhuma regra ter/ é nunca fazer nada que o mestre mandar/ sempre desobedecer/ nunca reverenciar.” (Da música ‘Como o Diabo Gosta’, do álbum Alucinação, de 1976).

‘Como o Diabo Gosta’ é mais do que uma canção de protesto porque ela é transformadora do comportamento humano. Esse tipo de canção é mais perigoso para a ordem social do que aquela de protesto porque traz em seu âmago um forte elemento perturbador. Tem a mesma força de ‘Pra Não Dizer que Não Falei de Flores’, de Geraldo Vandré. Dizem algumas más línguas que as palavras de Belchior foram perdendo a contundência ao longo da década de setenta e no fim dos anos oitenta ele já era outro compositor. Que nada! Vamos fazer aqui o resumo de um breve apanhado de trechos de algumas de suas letras para mostrar que ele permaneceu absolutamente o mesmo Belchior de ‘Alucinação’. Algumas letras são tão maravilhosas que as pusemos por completo. É o caso de ‘Não Leve Flores’, de 1976 e ‘De Primeira Grandeza’, de 1987. As críticas sobram pra tudo quanto é lado ao longo de sua carreira, emparelhadas com canções de amor ou de contestação. Confiram:

“Tenho 25 anos de sonho e de sangue/ E de América do Sul/ Mas por força do meu destino/ Um tango argentino/ Me cai bem melhor que um blues/ Sei que assim falando pensas/ Que esse desespero é moda em 76/ Eu quero é que esse canto torto feito faca/ Corte a carne de vocês”. ‘À Palo Seco’, do álbum ‘Belchior’, de 1974

“Ah! Essa história de amor/ Porque uns barcos se afastam/ E mil sereias cantam sem pudor/ Oh! Que trágico destino/ Preferi ser o assassino/ Ao amante leal/ E que os bandidos são úteis/ E nós, os amantes, fúteis/ Vulgaridade do mal.” ‘Amor e Crime’, do Álbum ‘O Quinze’, de 1989, artista Fagner, música de Francisco Casaverde e Belchior

“Ah! Donde estona los estudantes?/ Os rapazes latino-americanos?/ Os aventureiros, os anarquistas, os artistas?/ Os sem destinos, os renegados, os sonhadores?/ Esperávamos os alquimistas/ E lá vem chegando os bárbaros, os arrivistas, os comunistas, os mercadores/ Minas, homens não ha mais?” ‘Arte Final’, do Álbum ‘Baihuno’ de 1993, música de Jorge Mello, Gracco e Belchior

“Ah! metrópole violenta que extermina os miseráveis, negros, párias, teus meninos!/ Mais uma estação no inferno, Babilônia, Dante eterno! há Minas? Outros destinos?/ Conta àquela namorada que vai ser sempre o meu céu, mesmo se eu virar estrela/ (O par de botas de couro combina com o meu cabelo, já tão grande quanto o dela)/ E, no que toca à, família, dá-lhe um abraço apertado, que a todos possa abarcar/ Fora-da-lei, procurado, me convém família unida contra quem me rebelar.” ‘Bahiuno’, do Álbum de mesmo nome de 1993

“Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu xarope se cansaram de dizer:/ Pra que Deus, Dinheiro e Sexo, Ideal, Pátria, Família pra quem já tem Frigidaire?/ É Freud, rapaziada! Vir a cair na cantada dum objeto mulher/ Eu me confundo, madame/ E a classe média que mame se o céu, a prazo, se der!” ‘Balada de Madame Frifidaire’, do Álbum ‘Elogio da Loucura’ de 1988

“Não compro às violeteiras imorais/ Pois não bato em mulher nem com uma flor/ São de tal arte os negócios do amor, que sem pudor/ É posto à parte qualquer amador/ O amor é coisa para profissionais”. ‘Bossa em Palavrões’, do Álbum ‘Pessoal do Ceará’, de 2002

“Achar ou inventar um lugar/ Tão humano como o corpo/ Onde pensar e gozar/ Seja livre e tão legal/ Como razões de estado/ Ou como fazer justiça/ Como palavras num muro/ Ou escrever num jornal.” ‘Bel Prazer’, do Álbum ‘Todos os Sentidos’ de 1978

“Eu estou sempre em perigo/ E a minha vida sempre está por um triz/ Se vejo correr uma estrela no céu, eu digo:/ – Deus te guie, zelação, amanhã vou ser feliz/ É caminhando que se faz o caminho/ (Quem dera a juventude a vida inteira)/ Eu escolhi a vida como minha namorada/ Com quem vou brincar de amor a noite inteira.” ’Brincando com a vida’, do Álbum ‘Vanusa 30 anos’, de 1977

“Sua voz, morta, ainda canta/ ainda espanta o mau agouro/ nessa terra, onde o silêncio/ literalmente é de ouro”. ‘Carisma’, do Álbum ‘Coração Selvagem’ de 1977

“O cemitério é geral/ A morte nos faz irmãos/ Tu nessa idade e não sabes/ Tudo é sertão e cidade/ Tudo é cidade e sertão.” ‘Cemitério’, do Álbum ‘Belchior’ de 1974

“O que é que pode fazer o homem comum neste presente instante senão sangrar?/ Tentar inaugurar a vida comovida, inteiramente livre e triunfante?/ O que é que eu posso fazer com a minha juventude – quando a máxima saúde hoje é pretender usar a voz?/ O que é que eu posso fazer – um simples cantador das coisas do porão?/ (Deus fez os cães da rua pra morder vocês que sob a luz da lua, os tratam como gente – é claro! – a pontapés.)” ‘Conheço o meu lugar’, do Álbum ‘Era uma vez um homem e o seu tempo’ de 1979

“De tanto ver, fiquei cego/ Surdo de tanto escutar/ Ainda me sinto gente/ Mas não posso respirar/ Tem veneno em toda terra/ Mil fumaças pelo ar/ Não tem pássaro nem bicho/ E monte líquido de lixo/ Se tornou a água do mar.” ‘Cuidar do Homem’, do Álbum ‘Objeto Direto’ de 1980, o mesmo que tem ‘Joia de Jade’, de Dominguinhos e Belchior

“Quando eu estou sob as luzes/ não tenho medo de nada/ e a face oculta da lua que era minha aparece iluminada/ sou o que escondo sendo uma mulher/ igual a tua namorada/ mas o que vês, quando me mostro estrela/ de grandeza inesperada/ musa, deusa, mulher cantora e bailarina/ a força masculina atrai não é só ilusão/ a mais que a história fez e faz o homem se destina/ a ser maior que Deus por ser filho de Adão/ anjo, herói, Prometheu, poeta e dançarino/ a glória feminina existe e não se fez em vão/ e se destina à vida, ao gozo a mais do que imagina/ o louco que pensou a vida sem paixão.” ‘De Primeira Grandeza’ (letra completa para desfazer o enigma de Edna), do Álbum ‘Melodrama’ de 1987

“Veloso o sol não é tão bonito/ Pra quem vem do norte e vai viver na rua/ A noite fria me ensinou/ A amar mais o meu dia/ E pela dor eu descobri/ O poder da alegria/ E a certeza de que tenho coisas novas/ Coisas novas pra dizer a minha história/ É… talvez, é talvez igual a tua/ Jovem que desceu do norte/ Que no sul viveu na rua/ E que andou desnorteado/ Como é comum no seu tempo/ E que ficou desapontado/ Como é comum no seu tempo/ E que ficou apaixonado/ E violento como você/ Eu sou como você/ Eu sou como você/ Eu sou como você.” ‘Fotografia 3 x 4’, do Álbum ‘Alucinação’, de 1976

“Eu era alegre como um rio/ Um bicho, um bando de pardais/ Como um galo, quando havia/ Quando havia galos, noites e quintais/ Mas veio o tempo negro e a força fez/ Comigo o mal que a força sempre faz/ Não sou feliz, mas não sou mudo/ Hoje eu canto muito mais”. ‘Galos, Noites e Quintais’, do Álbum ‘Coração Selvagem’, de 1977

“Lavrar a palavra a pá/ Como quem prepara um pão/ Quando o mar virar sertão/ Nossa palavra será/ Tão humana como o pão/ E o canto que soar um palavrão/ Se mostrará como é:/ Anjo de espada na mão.” ‘Humano Hum’, do Álbum ‘Todos os Sentidos’, de 1978

“Trago guardada num quintal dentro de mim/ (horto fechado que o povo chama jardim)/ A fina flor do alecrim:/ Cheirosa dama da noite/ Rosa de cheiro sem fim/ Flora, abomina – deusa encarnada!/ Mostra-me a sina: um v de verão/ Jasmim secreto ao sol glorioso:/ Um mistério gozoso pro meu coração.” ‘Joia de Jade’, do Álbum ‘Objeto Direto’, de 1980

Nesta terra de doutores, magníficos reitores, leva-se a sério a comédia! A musa-pomba do Espírito Santo – e não o bem comum! – Inspira o bispo e o Governante. Velhos católicos, políticos jovens, senhoras de idade média, – sem pecado abaixo do Equador – fazem falta e inveja ao inferno de Dante. Tão comum e tirar-se daqui qualquer coisa que eu também tiraria o chapéu à vontade. Aos cidadãos respeitáveis, donos de nossas vidas, pais e patrões do país. Mas em vez tiro o lenço… Não para enxugar, portuguesmente, a saudade… Mas pra saudar num Ciao! Quem me expulsa de casa! Dar um “viva, excelência!” E tapar o nariz! Não, não quero contar vantagem, mas já passei fome com muita elegância. E uns caras estranhos – ordens superiores! Já invadiram minha casa… Mas com muito respeito! Diabo de profissão! Ganhar com o suor de meu gosto o bendito pão e o gim das crianças!” ‘Jornal Blues’, do Álbum ‘Melodrama’, de 1987, música de Gracco e Belchior

“Baby, enquanto um velho mestre de blues radioativas nas ondas sonoras do carro, tome um fósforo e, ao gosto dos anjos, acenda o ultimo cigarro. – Que aquele bêbado lhe deu – e blues lamente comigo os tempos cínicos e cruéis para o caubói delicado que você diz que sou eu. Ah! Você lembra? Naquele tempo, quem não queria tomar o poder e que mãe não tomava comprimidos pra dormir? – ‘É proibido proibir!’” ‘Lamento do Marginal Bem Sucedido’, do Álbum ‘Baihuno’, de 1993

“Meu cordial brasileiro/ (um sujeito) me conta o quanto é contente e quente)/ Sorri de dente de fora, no leito, sulamericanamente/ Senhor não me perdoa/ Eu não estar numa boa/ Perder sempre a esportiva/ Frente a esta gente indecente/ Que come, dorme e consente/ Que cala, logo está viva.” ‘Meu Cordial Brasileiro’, do Álbum ‘Era uma vez um homem e o seu tempo’, de 1979, música de Belchior e Toquinho

“Todo mundo sabe, todo mundo vê/ Que tenho sido amigo da ralé da minha rua/ Que bebe pra esquecer que a gente é fraca, é pobre, é vil/ Que dorme sob as luzes da avenida/ É humilhada e ofendida/ Pelas grandezas do Brasil/ Que joga uma miséria na esportiva/ Só pensando em voltar viva/ Pro sertão de onde saiu.” ‘Monólogo das Grandezas do Brasil’, do Álbum ‘Paraíso’, de 1982

“Não cante vitória muito cedo, não/ Nem leve flores para a cova do inimigo/ Que as lágrimas do jovem são fortes como um segredo:/ Podem fazer renascer um mal antigo/ Tudo poderia ter mudado, sim/ Pelo trabalho que fizemos – tu e eu/ Mas o dinheiro é cruel/ E um vento forte levou os amigos para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos/ E nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não/ Palavra e som são meus caminhos pra ser livre, e eu sigo, sim/ Faço o destino com o suor de minha mão/ Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa/ E não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza/ – Sempre é dia de ironia no meu coração/ Tenho falado à minha garota:/ – Meu bem, é difícil saber o que acontecerá/ Mas eu agradeço ao tempo, o inimigo eu já conheço/ Sei seu nome, sei seu rosto, residência e endereço/ A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá/ A voz resiste. A fala insiste: quem viver verá.” ‘Não Leve Flores’, do Álbum ‘Alucinação’, de 1976 (letra completa)

“Ei, senhor meu rei/ Do tamborim, do ganzá/ Cante um cantar/ Forme um repente pra mim/ Aqui, Nordeste, um país de esquecidos/ Humilhados, ofendidos/ E sem direito ao porvir/ Aqui, Nordeste, Sul-América do sono/ No reino do abandono/ Não há lugar para onde ir.” ‘Onde Jaz Meu Coração’, do Álbum ‘Cenas do Próximo Capítulo’, de 1984

“Onde anda o tipo afoito/ Que em 1-9-6-8/ Queria tomar o poder?/ Hoje, rei da vaselina/ Correu de carrão pra China/ Só toma mesmo aspirina/ E já não quer nem saber/ Flower power! Que conquista!/ Mas eis que chegou o florista/ Cobrou a conta e sumiu/ Amor, coisa de amadores/ Vou seguir-te aonde f(l)ores!/ Vamos lá, ex-sonhadores/ À mamãe que nos pariu!” ‘Os Profissionais’, do Álbum ‘Elogio da Loucura’, de 1988

“Eu tenho medo e medo está por fora/ O medo anda por dentro do meu coração/ Eu tenho medo de que chegue a hora/ Em que eu precise entrar no avião/ Eu tenho medo de abrir a porta/ Que dá pro sertão da minha solidão/ Apertar o botão: cidade morta/ Placa torta indicando a contramão/ Faca de ponta e meu punhal que corta/ E o fantasma escondido no porão.” ’Pequeno Mapa do Tempo’, do Álbum ‘Coração Selvagem’, de 1977

“Eram três as caravelas/ Que chegaram d’além mar/ E a terra chamou-se América/ Por ventura? Ou por azar?/ Não sabia o que fazia, não/ D. Cristóvão, capitão/ Trazia em vão/ Cristo em seu nome/ E, em nome d’Ele, o canhão.” ‘Quinhentos Anos de Quê?’, do Álbum ‘Bahiuno’, de 1993, música de Eduardo Larbanois e Belchior

“Presentemente, eu posso me considerar um sujeito de sorte/ Porque apesar de muito moço me sinto são, salvo e forte/ E tenho comigo pensado/ Deus é brasileiro e anda do meu lado/ E assim já não posso sofrer no ano passado/ Tenho sangrado demais/ Tenho chorado pra cachorro/ Ano passado eu morri/ Mas esse ano eu não morro”. ‘Sujeito de Sorte’, do Álbum ‘Alucinação’, de 1976

“Quando eu vim para a cidade, eu ganhava a minha vida, ave-pássaro cantando na noite do cabaré/ E era mais pobre do que eu a mulher com quem dividia, dia e noite, sol e cama, cobertor, quarto e café/ O Nordeste é muito longe. Eh! Saudade/ A cidade é sempre violenta/ Pra quem não tem pra onde ir/ A noite nunca tem fim/ O meu canto tinha um dono/ E esse dono do meu canto/ Pra me explorar me queria sempre bêbado de gim/ O patrão do meu trabalho era um tipo de mãos apressadas em roubar, derramar sangue de quem é fraco, inocente/ Tirava o pão das mulheres – suor de abraços noturnos, confiante que o dinheiro vence infalivelmente”. ‘Ter ou Não Ter’, do Álbum ‘Todos os Sentidos’, de 1978

“Aluguei minha canção/ Pra pagar meu aluguel/ E uma dona que me disse/ Que o dinheiro é um deus cruel/ A minha alma esteve à venda/ Como as outras do lugar/ Só que ninguém me comprou/ Pois só eu quis me pagar.” ‘Tocando por Música’, do Álbum ‘Melodrama’, de 1987, de Jorge Mello e Belchior

“El condor passa sobre os Andes/ E abre as asas sobre nós/ Na fúria das cidades grandes/ Eu quero abrir a minha voz/ Cantar, como quem usa a mão/ Para fazer um pão/ Colher alguma espiga/ Como quem diz no coração:/ – Meu bem, não pense em paz/ Que ela deixa a alma antiga.” ‘Voz da América’, do Álbum ‘Felicidade’, do artista Antonio Marcos, de 1976

E para encerrar, a letra da minha música preferida dele, ‘Paralelas’, a que tem a frase maior: TEU INFINITO SOU EU!

“Dentro do carro/ Sobre o trevo/ A cem por hora/ Oh meu amor/ Só tens agora/ Os carinhos do motor/ E no escritório/ Onde eu trabalho/ E fico rico/ Quanto mais eu multiplico/ Diminui o meu amor/ Em cada luz de mercúrio/ Vejo a luz do teu olhar/ Passas, praças, viadutos/ Nem te lembras de voltar/ De voltar/ No Corcovado/ Quem abre os braços sou eu!/ Copacabana, esta semana/ O mar sou eu!/ E as borboletas do que fui pousam demais/ Por entre as flores do asfalto em que tu vais/ E as paralelas dos pneus/ Na água das ruas/ São duas estradas nuas/ Em que foges do que é teu/ No apartamento/ Oitavo andar/ Abro a vidraça/ E grito quando o carro passa:/ Teu infinito sou eu!” Do Álbum ‘Amigos Novos e Antigos’, de Vanusa, de 1975.

Por Abílio Neto

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