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Jerry Adriani: na trilha de dois profetas e na mira de duas estrelas

Este paulistano que nos deixou no dia 23 de abril de 2017, foi um dos cantores mais adorados pelo meio artístico brasileiro exatamente por uma qualidade: era gente boa demais. A MPB culta e esquerdista não gostava dele porque pertenceu àquele movimento conformista que introduziu a guitarra no Brasil. Além disso, ele quase conseguiu raptar duas musas da MPB para seu lado amoroso: namorou Nara Leão e Maria Bethânia.

Mas o Jerry, rapaz do Brás, nascido em 29/01/1947, e neto de italianos da região da Calábria, além de ter voz de tenor era muito afinado. Surgiu em 1964 juntamente com Wanderley Cardoso. E o fã clube dos dois sempre que se encontrava quebrava o pau. E aí inventaram a inimizade desses artistas que na realidade nunca existiu. Uma pessoa, porém, Jerry nunca perdoou: Elis Regina. Ela com seus ódios e rancores detestava o iê-iê-iê e a Jovem Guarda e sempre tratou Jerry com desprezo e nojo. Recusava-se a falar com ele, mesmo que fosse para dizer um simples oi e nem respondia seus cumprimentos. Quando já estava casada com o pianista César Camargo Mariano, um dia encontrou Jerry numa gravadora e resolveu falar: – Oi, Jerry Adriani. Ele fez que não ouviu. Ela repetiu e ele ficou na mesma. O César teve que intervir: – Ela está falando com você, não ouviu? Jerry respondeu: – pergunte a ela por que eu não respondo seu cumprimento.

erry Adriani, a namorada Bethânia, Nara e Danusa Leão

Esse cantor que foi registrado como Jair Alves de Souza, encontrou-se no ano que foi editado o AI-5, 1968, em Salvador com um jovem que tinha uma banda chamada ‘Raulzito e os Panteras’. Jerry estava na capital baiana participando de um show triplo com Nara Leão e Chico Anísio. Naquele dia do show, a banda baiana que iria acompanhar Jerry não pôde ingressar no famoso Clube de Tênis porque dois de seus músicos eram negros. Foi quando surgiu a indicação para chamarem a banda desse rapaz moço e magro que acabava de se casar. A banda de Raulzito sabia de cor o repertório de qualquer artista da Jovem Guarda. Não precisaram nem ensaiar. Nara que assistiu ao show de Jerry foi quem lhe deu a primeira opinião: – esta banda que te acompanhou é ótima. Por que não levá-la para o Rio para te acompanhar nos shows?

Um ano depois Raulzito e banda desembarcaram no Rio de Janeiro para trabalharem com Jerry. Se o disco que lançaram não fez sucesso, o rapaz que a liderava dava mostras a Jerry de que poderia ser um grande produtor musical. E foi assim que Jerry colocou Raulzito na CBS como produtor com o apoio do poderoso diretor artístico Evandro Ribeiro. Na CBS Raulzito produziu dois discos de Jerry, os de 1970 e 1971, mais os discos de outros artistas e ao mesmo tempo foi compondo, aprendendo ser rebelde e iniciando uma das metamorfoses mais impressionantes da música brasileira. Morria a ingenuidade baiana de Raulzito e nascia o mito Raul Seixas com tudo de mais espetacular e trágico que o tempo se encarregou de mostrar. Em 1973, ele já encantava o Brasil com “Ouro de Tolo”. Disse Jerry em entrevista: “Eu conheci Raulzito, nunca tive nada com Raul Seixas”.

Jerry foi padrinho da primeira filha de Raulzito e sua amizade com ele sempre foi movida a sinceridade e carinho. Nessa fase e sempre com o nome de Raulzito, Raul Seixas deu umas seis músicas para Jerry gravar, uma delas se tornando um dos maiores sucessos de sua carreira: “Doce, doce amor”. A que eu gosto mais, no entanto, das suas produções daquela época e porei para tocar no final desta crônica é “Tudo que é bom dura pouco”. Dá bem a noção do gênio criativo que era Raul.

A Jovem Guarda acabou, Raul seguiu outro caminho e Jerry continuou sua carreira artística com o pop romântico, lançando discos e fazendo shows, sem ser incomodado pela vigorosa MPB da década de 70. Até que se surpreendeu um dia no início da década de 80 (1982) com uma voz que ouviu no rádio e achou que fosse ele próprio que estivesse cantando. Não, não estou ficando louco. Esta voz não pode ser minha. Eu nunca gravei esta música! Era o Renato Russo, outro profeta e futuro mito da música brasileira. Assim como Raulzito!

Jerry Adriani e George Harrison no início dos anos 80

Alguns amigos que eu tinha me diziam aí por volta de 1984/1985 o seguinte: esse cantor Jerry Adriani deve ser um santo porque esse Renato Russo o imita escandalosamente e ele nunca se queixou disso a ninguém. Na realidade, o Jerry se sentia feliz com aquela semelhança de timbres. E jamais pensou que Renato Russo fosse embora tão depressa e ele Jerry tivesse a oportunidade de lhe prestar um tributo na forma do CD “Forza Sempre”, de 1999, com 10 músicas do roqueiro vertidas para o italiano, algumas quase desconhecidas do público, disco esse que se transformou num dos melhores lançamentos musicais da década de 90 e vendeu mais de 200 mil cópias. E Jerry era roqueiro desde a Jovem Guarda, assim como Eduardo Araújo e Erasmo Carlos. Jerry cantando “Será” conforme vocês verão no vídeo abaixo não tem preço!

A primeira vez que o líder da Legião Urbana encontrou Jerry demonstrou afinidade e foi logo afirmando: – dizem que nossos timbres se parecem, o que você acha? Jerry respondeu: – eu também acho. E ambos caíram na gargalhada. Descobriram alguma coisa em comum que os uniu ainda mais: os dois eram muito fãs de Elvis Presley. Jerry, ainda na década de 80, teve a oportunidade de prestar um tributo ao Rei do Rock na forma de um vinil muito aclamado. Algum tempo depois do primeiro encontro, Renato viu Jerry numa fila de embarque de um aeroporto, passou perto dele e falou: – Jerry eu sonhei com Elvis e ele me mandou imitar você. E saiu rindo.

Jerry Adriani aos 70 anos.
Jerry Adriani aos 70 anos

A homenagem que Jerry faria a Raul estava prevista para este ano com a gravação de um CD, projeto que a morte em 23 de abril atrapalhou. Resta uma biografia a ser escrita por Marcelo Fróes na qual Jerry escreveu a primeira parte quando era Jair Alves de Souza. Ele passou a ser Jerry mesmo em 1964, aos 17 anos e já gravando os dois primeiros discos em italiano.

Jerry era engraçado e suas histórias eram sempre interessantes como esta: certa vez ao fim da missa de 7º dia da mulher de um famoso cantor que pela segunda vez ficava viúvo, esperando que a multidão se dispersasse e não incomodasse o astro, o puseram em uma pequena sala na igreja para fazer companhia ao viúvo. Depois viriam buscá-los quando não houvesse mais fãs a fim de dar os pêsames ao solitário. Foi quando o tal cantor, deu-lhe as costas, não lhe dirigiu uma só palavra, virou-se para um jarro de flores e começou a conversar: “plantinha querida, vou lhe contar a história de minha vida. Eu nasci em…” Passados mais de 15 minutos, por sentir não ter o que fazer ali, Jerry saiu discretamente do ambiente ou como diria Mussum, ‘se pirulitou’, comentando consigo mesmo: – e ainda dizem que o doido sou eu porque faço um show de uma hora e meia e depois dedico de duas a três horas para atender meus fãs. E isso era profundamente verdadeiro: no seu velório havia fãs que vieram de longe os quais Jerry visitava por ocasião do aniversário ou na véspera de Natal mantendo uma relação impossível de se encontrar em qualquer pop star dessa era pobre musicalmente em que vivemos.

Assim era o Jerry, um ídolo que por tudo isso deixará muitas saudades!

Por Abílio Neto

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