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Nazaré Pereira, a artista que levou Luiz Gonzaga a Paris

Maria de Nazaré Pereira, nasceu no Xapuri, Acre, terra do famoso Chico Mendes, a 10 de dezembro de 1940, e é uma cantora, compositora e atriz brasileira. Gravou, até o início do Século XXI, 17 discos no total, a maioria deles na França.

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Nazaré Pereira – Foto:divulgação

Aos sete anos, mudou-se com a família para o Estado do Pará, indo residir no bairro de Icoaraci (atual Vila Sorriso) em Belém. Formou-se professora primária. Foi para o Rio de Janeiro e fez Faculdade de Teatro na Uni-Rio. Em 1969, ao lado de Leila Diniz, atuou em diversas novelas. Por essa mesma época, ganhou um prêmio no programa “A grande Chance”, de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi. O prêmio foi uma passagem para Portugal. De Lisboa, viajou para Nancy, na França. Nesta cidade, estudou teatro com Jack Lang, mais tarde ministro da Cultura do governo Mitterrand. Fez graduação no Centre Universitaire Internacional de Formation et des Recherches Dramatiques de Nancy. No ano de 1971, em Paris, sob a direção de Bob Wilson, integrou o elenco da peça “Les Regard du Sourd”, encenada no Teatre de La Musique. No ano seguinte, representou o Brasil no Festival de Teatro de Quito (Equador). Dois anos depois, participou do Festival de Teatro de Nancy. Por essa época, começou a cantar em casas noturnas de Paris. Trabalhou também como dançarina, integrando os grupos “Les Étoiles” e “Os Maracatus”. Atuou também ao lado de Tânia Maria, Teca Calazans e Ricardo Villas. Sua primeira música composta foi “Xapuri do Amazonas” em 1978. Nesse mesmo ano gravou “Nazaré”, primeiro disco lançado pela gravadora Cezame/RCA, na França. Sua interpretação para “O cheiro de Carolina”, de Zé Gonzaga e Amorim Roxo, obteve o primeiro lugar nas paradas de sucesso da Bélgica e Suíça. Com o sucesso, decidiu morar na França. Entre seus discos mais conhecidos está a compilação feita por David Byrne para a gravadora EMI, “Beleza Tropical”, no qual interpretou “Maculelê” e “Caixa de sol”, participando deste mesmo disco Caetano Veloso e Gilberto Gil. Escreveu com Michel Mayne (compositor de “Emmanuele”) letras para trilhas sonoras de filmes franceses.

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Nazaré Pereira Gonzagueando

Em Paris, manteve um programa de música brasileira em uma emissora FM. No LP “Amazônia”, gravado e lançado na França também pela Cézame, incluiu um dos maiores sucessos de sua carreira, “Xapuri do Amazonas”, de sua autoria, além de outras composições, como “Riacho do Navio” (Luiz Gonzaga e Zé Dantas), “Sodade, Meu Bem Sodade” (Zé do Norte e A. do Nascimento), “Baião de Paris” e “Forró no Escuro” (ambas de Luiz Gonzaga), “O Que Vier Eu Traço” (Alvaiade e Zé Maria) e “Boi Bumbá”, de Waldemar Henrique. Em 2003, a gravadora americana Putumayo incluiu várias interpretações suas em coletênas lançadas somente para o mercado norte-americano.

Vivendo em Paris faz 37 anos, considera Brasil e França como seus dois amores. Na França, sua música mais famosa é “La Marelle”, responsável pelo disco de ouro ganho lá na década de 90. No Brasil, sua música mais aclamada é “Xapuri do Amazonas”. Em suas composições, várias letras enaltecem a floresta, as lendas, os rios e os povos indígenas. Seus shows são embalados pelos mais diferentes ritmos conforme ela própria comenta:

“Eu canto carimbó, forró, xote, xaxado, não canto muito samba e bossa nova. Mas, não gosto de receber rótulos de cantora de determinado ritmo, gosto de cantar música brasileira”.

Ela se considera acreana/paraense e sempre foi apaixonada por Belém. E diz o porquê: “Em primeiro lugar, aqui tem a Nossa Senhora de Nazaré, já que sou bastante religiosa. Em segundo, tem a minha mãe, que já está com 93 anos e eu tento não ficar muito tempo longe dela. Depois, tem todas as peculiaridades da nossa terra, como as mangueiras, a chuva diária, as praças e os interiores. Adoro estar em contato com a natureza”.

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Nazaré Pereira e Luiz Gonzaga em Paris em maio de 1982.

Ela foi a responsável pelo sucesso de Luiz Gonzaga na França. É bom ler o que ela disse sobre esse fato. Fala, Nazaré Pereira:

“Meu primeiro encontro com Luiz Gonzaga foi no Rio de Janeiro em um show que ele estava fazendo com Gonzaguinha no Teatro do Hotel Rio. Quando fui apresentada a ele fiquei muito impressionada, as pernas tremiam e o coração fazia bum, bum, bum… Ele me olhou e falou, com aquela voz que lhe era peculiar, ‘eu já te conheço há muito tempo menina, tu já faz parte da minha família, amanhã tu vem almoçar comigo, na minha casa na Ilha do Governador’. Não preciso dizer que passei a noite sem dormir, esperando a hora de chegar na casa dele. Quando cheguei, foi uma festa, eu me senti verdadeiramente fazendo parte da família. Papo vai, papo vem, ele me disse, ‘como tu sabe fazer letra de música, tenho uma que fiz pensando em tu’. Pegou a sanfona e começou a tocar dizendo: ‘vai escrevendo um pouco e depois tu bota a letra de verdade que depois do almoço vou tirar uma soneca e quando acordar quero a letra pronta’. Ele era assim, a voz forte já era uma ordem. Escrevi a letra e quando ele ouviu falou: ‘gostei, como tu nasceste no Acre e acre é amargo e você gosta do teu Estado, chame ACRE DOCE’. Foi assim que virei parceira de Luiz Gonzaga. Nesse mesmo dia eu perguntei se ele gostaria de fazer um show em Paris e ele falou: ‘me leve que eu vou’. Depois de grandes transações, ficou combinado que ele viria com D. Helena e seria acompanhado pelos músicos que tocavam comigo na época. O grande SHOW foi realizado no dia 22 de maio de 1982 no Teatre BOBINO em Paris, ano em que ele completaria 70 anos. Em Paris ele ficou hospedado em meu apto e aí eu o conheci de verdade. Acordava cedo e queria conhecer tudo. Ensaio, nem falar, acostumado que era a tocar e os músicos irem atrás. Eu coçava a cabeça sem saber como fazer, pois os músicos estavam impressionados e queriam ensaiar para estarem seguros. Ele ria. Nas entrevistas, ele era de um grande profissionalismo, mas o problema era que ele impressionava todo mundo. Fomos fazer o grande Jornal da TV e ele ia cantar Boiadeiro e quando ele começou, os técnicos ficaram doidos com a altura da sua voz. No teatro foi a mesma coisa: pânico na mesa de som. O show foi lindíssimo e os franceses descobriram a verdadeira musica do nordeste do Brasil. Uma jornalista daqui, chamada Dominique Dreifus foi passar um mês no Exu para escrever um livro sobre a vida dele, você deve achar o livro por aí. Em 13 de dezembro do mesmo ano, eu fui passar seu aniversário em Exu e foi um período muito importante para mim, pois passei 5 dias com ele e D. Helena em Recife e Exu e conheci o Mundo Gonzaga, procissão dos vaqueiros, etc. É muito difícil descrever os momentos que passei com o Mestre, mas tenho uma história interessante: uma vez fomos a um restaurante chic em Paris, com 5 jornalistas e seu Luiz queria comer galinha assada com arroz e quanto mais eu explicava que ali não servia arroz, mais ele queria. Fui na cozinha e prometi três discos para o chef, contei que ele era a maior vedete da música brasileira e que não seria diplomático não fazer suas vontades. Ele assou a galinha e fez o arroz. Foi um corre-corre, mas uma hora depois, seu Luiz, feliz da vida, estava comendo sua penosa com arroz e farofa, pois pedi ao meu secretário para ir até minha casa buscar farinha. A parti daí eu só andava com farinha e arroz na bolsa para evitar problemas. Assim era seu Luiz, exigente e maravilhoso”.

Vamos escutar algumas maravilhas de Nazaré Pereira gravadas na França: “Tacacá”, grande baião de Luiz Gonzaga e Lourival Passos; “O Cheiro da Carolina”, de Zé Gonzaga e Amorim Roxo (este último comprou a parceria de João do Vale); “Xapuri do Amazonas”, dela, gravada no show “Dois Amores” em agosto de 2011 em Belém/PA; “Rolinha”, folclore da Amazônia, gravada ao vivo no Olympia de Paris em 1981; e finalmente, sua composição com Luiz Gonzaga, “Acre Doce”.

Nazaré fará 75 anos em 10 de dezembro de 2015. Que Deus lhe dê muita saúde!





Nazaré Pereira – Acre Doce(Nazaré Pereira e Luiz Gonzaga)

Por Abílio Neto

One comment

  1. Joaquim Francisco de Macedo Junior

    Abílio vc emociona sempre. Quando pensamos que está tudo certo, os compêndios escritos, as enciclopédias concluídas e o conhecimento da área suficientemente já visto, lá vem você.

    Descolando informações preciosas, com histórias precisas de pessoas famosas e menos célebres, Onde eu iria ver Gonzagão em Paris com tanta desenvoltura.

    Porém, desta vez, a minha estatelação fica por conta de Nazaré Pereira. E mai, cantando Tacacá, que está no meu ouvido emocional desde há muito.

    Outra vez, o óbvio: valeu Abílio!

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