terça-feira , dezembro 6 2016
Home / Música / Dona Zaíra, uma banda da era do CD que é do K7

Dona Zaíra, uma banda da era do CD que é do K7

Dizia Antonio Conselheiro que o sertão ia virar mar e o mar sertão. Se no sentido ecológico tal fato ainda não sucedeu, no que se refere ao gênero forró, o Sudeste virou Nordeste, no sentido de que as boas novidades vêm de lá. E é muito bom notar e acompanhar a evolução do gênero na percepção dessa juventude que surgiu artisticamente um pouco antes da virada do século XX.

Interessante observar que esses talentosos artistas aparecem em grupos ou bandas, ao contrário dos forrozeiros do Nordeste que buscam sempre o destaque individual. E o forró tradicional que se produz no sudeste, principalmente através de São Paulo, nada fica a dever ao forró atual do Nordeste. O forró nordestino, a partir da década de noventa, praticamente se resume em xote que, por ser tão executado, se tornou até cansativo. O baião está praticamente morto e a criação de arrasta-pés, forrós e xaxados em relação ao xote é infinitamente menor. O coco, a embolada e o rojão, coitados, quase que só são lembrados em regravações, algumas delas totalmente dispensáveis do ponto de vista artístico. O excesso de puladinho do xote foi uma das causas para o surgimento do forró de plástico ou fuleiro, gostem ou não dessa afirmativa os xoteiros (artistas do xote) por natureza. Foi uma correnteza tão grande de xotes românticos (ou broxânticos) que o forró como um todo quase morre de afogamento. Não adianta os xoteiros me desmentirem porque 90% do repertório dos discos dos artistas atuais do Nordeste que atuam no forró tradicional, são composições em ritmo de xote. E isso cansou não somente a mim, mas também a juventude do novo século, que sem compromisso com a tradição, engoliu a adaptação do vanerão gaúcho como uma coisa nova e até chama isso de “forró estilizado”.

Forró Dona Zaíra
Dona Zaíra quando ainda era um quinteto

Na contra-mão disso tudo aí, apesar de que começou xoteando, um desses grupos de forró do sudeste me chamou muito a atenção: é a banda “Dona Zaíra”, constituída em Piracicaba, São Paulo. É incrível como neste ano de 2015 ela completa dez anos de estradas e linhas de voos, estes para fazer a travessia do Atlântico. Sim, é verdade, o grupo já tem alguns milhares de fãs na Europa. Não se vestem de vaqueiros nem de cangaceiros, mas de astronautas e isso é muito bom porque pode até levá-los a forrozear na Lua ou em Marte. A sonoridade do grupo é impressionante!

Fiz questão de acompanhar a progressão da banda no Superstar 2015 e os rapazes se saíram muito bem. Ao meu modesto olhar, caíram nas semifinais porque não foram muito felizes na escolha daquilo que cantaram, se bem que não vai nenhuma crítica nessa questão, que é uma coisa que somente a eles diz respeito. Mas não deixei de lamentar porque não chegaram na grande final, apesar de saber que dependiam menos de um corpo de jurados e mais do bom gosto do público votante, que hoje não anda lá essas coisas todas. São tantos absurdos fazendo sucesso!

O nome da banda, Dona Zaíra, é uma rasgada e merecida homenagem a uma vizinha dos músicos, lá de Piracicaba, que tolerava o “barulho” que eles faziam cantando e tocando. Acho que a pessoa Dona Zaíra se fez admiradora da banda que traz seu nome porque ela faz um forró moderno. Zaíra deve entender muito de forró e percebeu que no então quinteto, hoje transformado em sexteto, há até a participação virtuosa de um solista de cavaquinho, se bem que, na década de 50, houve várias gravações de Luiz Gonzaga em que ele pediu a introdução de um violão ou cavaquinho no seu acompanhamento tradicional. Chegou a gravar com Garoto. Lembre-se da gravação original de “Sabiá”.

Nessa banda sudestina, o que surpreende é a variedade de ritmos como coco de roda, cúmbia, carimbó e maracatu, sobretudo a contar do terceiro CD. Mas o que me atrai em especial em Dona Zaíra é justamente a sua paixão pelo maracatu, como se seus componentes tivessem sido criados no Pátio do Terço, em Recife, esta fortaleza inexpugnável do ritmo em Pernambuco. E tocam o maracatu com tanta perfeição que mais parecem afilhados da saudosa Dona Santa. Misturam-no com o forró e o que resulta disso aí é um som danado de gostoso de ouvir, dançar, mexer, pular e até fazer requebradinho, conforme o recado em tom de humor vindo da letra do xote Zé do Rock, um dos maiores sucessos do saudoso Dominguinhos.

Não é à toa que vocês verão nesse vídeo abaixo, brasileiros e franceses felizes da vida ao som do maracatu, isso direto de Paris. Vida longa ao grupo Dona Zaíra porque ele é do K7!

Integrandes atuais de Dona Zaíra: André, sanfona e vocal; Diego, triângulo e coro; Rafael Beibi, zabumba e vocal principal; Matheus, contrabaixo e coro; Rafael, cavaco e coro; e Maicon Araki, percussão. A maioria do que a banda grava é formada por composições próprias.

Discos na praça: “O forró de Dona Zaíra”, de 2008, que peca pelo excesso de xotes; “Tome Forró”, de 2012, que tem influências gonzagueanas; e “Antenas e Raízes”, de 2014, que inaugura nova fase sonora. Esses discos poderão ser baixados diretamente do site da banda, independentemente de remuneração, numa parceria com o essencial blog “Forró em Vinil”. Os rapazes querem ser gostados, divulgados e admirados. E fazem eles muito bem. É difícil hoje em dia sobreviver da venda de discos. A internet existe não somente como uma nova forma de comércio, mas figura também como substituta do rádio e da TV que permanecem absolutamente alienadas e divulgando excrescências musicais. Não sentiu ainda o cheiro ruim de “sertanejo universitário” pelo ar?

Dona Zaíra – Terno e Gravata (Rafael Beibi)

Dona Zaíra – Sexo (Rafael Beibi)

Dona Zaíra – Forró de Repente (Fúlvio, André e Matheus)

Por Abílio Neto

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Você não tem permissão para usar essa função.