sábado , dezembro 3 2016
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A breguice rasgada do coração de cornos e românticos

Começo fazendo a transcrição de um texto romântico, captado na internet, que achei belíssimo:

“Sou névoa que demora a se desfazer, caminho de areia batida, trilha de pastores. Sou o pastor de mim mesmo. Permito que ela diga todas as suas coisas, as boas e as más, acho importante essa troca, esse dar-se sem fim, essa ternura, esse olhar que percebe minha alma no fundo dos meus olhos e sorri. Interessa-me exclusivamente a pureza desse mundo e os homens de boa vontade. Eu te aceito, tu me aceitas, nós nos aceitamos. Essa é a conjugação que permite minha redenção. Sou o que tu és porque és o que sempre desejei ser. Nossas distâncias são menores a casa dia, a cada átimo de sensação de entrega, de ser-te. Ignoro alguma posição contrária, ignoro o mundo e as estrelas, os eruditos e os boçais… Sou alguma coisa que pretende atravessar esse tronco deitado sobre a catarata. Sorrio diante das besteiras e tenho um olhar compreensivo para os pobres de espírito e até questionaria Deus sobre essa diferença entre seres humanos. Mas o egoísmo me faz deixar tudo de lado para beber teu sorriso, para entrar nos teus olhos de mar. Para ti, leio um poema de um livro encapado em couro. Conto histórias do Oriente, invento histórias que só você sente, canto baixinho as canções do Amor Demais. Amanhã, você ainda sonolenta por causa do nosso vinho, vai me perguntar que outras patetices foram lançadas e te direi, amor, que nenhuma, que não levantei, que velei teu sono manso, suave, que só me interessa a frase deturpada na canção quando diz ‘se o bem e o bem existem’. Trago para você estrelas mambembes, personagens caboclos, a infinitude do universo é meu presente, minha oferta. O resto é apenas o resto.” (Peter Pan)

Lindo texto, concordam comigo? Tão bom que fosse assim para todas as pessoas do mundo, mas a vida é infinitamente cruel para milhares de outras. Sofrem, se iludem, se perdem, correm e vão atrás. Não encontram mais nada. Cadê aquele amor verdadeiro que aparentava ser tão duradouro quanto uma geladeira Kelvinator? Desapareceu, porque hoje em dia, as juras de afeto acabam como as garantias estendidas de certos eletrodomésticos. Findo o prazo de três anos dado pelo fabricante, apresentam um defeito grave, o conserto é caro e o mais viável economicamente é jogá-los no lixo. Mas amor se compra? Às vezes sim. Pobre de quem ama alguém infinitamente (sem limite) quando a pessoa amada embute, sem que se perceba, um prazo de validade para a relação amorosa. A história da humanidade não é a das pessoas felizes no amor, mas a das desiludidas. E isso, por incrível que possa parecer, as fazem produtivas: escrevem sonetos sofridos ou prosas dilacerantes como se suas vidas estivessem como o bagaço de cana das usinas, após as moendas terem delas retirado todo o seu caldo doce. E quando nascem com o talento de criar uma melodia para uma poesia, conseguem atingir todos os sentidos das almas gêmeas no sofrimento que, ao que me parece, já esperavam uma espécie de consolo através das notas musicais. Este é o grande trunfo dos compositores de música popular sobre os artistas da palavra: poetas e escritores. O compositor que faz música sobre a felicidade não faz quase nenhum sucesso, porém o contingente dos infelizes no amor é tão grande que produz assim do nada um pobre poeta de limitados recursos artísticos e ainda o faz atrair milhares de pessoas para seus shows e, melhor para ele, torna-o riquíssimo do dia para a noite. Não estou falando de Fernando Mendes porque este é grande na criação artística, mas daquele baiano que inventou a sofrência, o tal do Pablo, que para mim é insuportável, assim como são intoleráveis esses chamados corníferos sertanejos universitários. A música hoje dedicada aos cornos é de baixo nível e por esse motivo os fazem muito mais infelizes. O sujeito ficar roendo por alguém ouvindo uma música de qualidade, como acontecia no passado, era muito bom, porque até sentia exaltada a grandeza do seu coração romântico ou cornudo.

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Cantor Fernando Mendes

Mas por falar em Fernando Mendes, que tal relembrá-lo em “Sádico Poeta”? Puxa, tomei tantas cervejas e caipirinhas ouvindo essa música, tentando um alento para tirar a amargura do espírito, que meu corpo, através do fígado, foi quem sentiu os efeitos do excesso da bebida, esta incentivada pelo romantismo inabalável desse artista.

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Fernando Mendes

O tempo, no entanto, ajuda a encontrar um jeito para aquilo que, aparentemente, está desajeitado de vez. A pessoa sofre muito, mas depois se liberta e enterra para sempre seus sentimentos recalcados, eliminando a dor em definitivo. Agora, o poeta citado, esse eu não encosto nem suspendo de maneira alguma. O corno em ascensão deve suspender a bebida, jamais o poeta que embalou seus sonhos de ser feliz! É por esta razão que, de vez em quando, ainda ponho seu disco para tocar, ao me sentir tomado por algum sentimento de chifrudo desiludido, mas o faço bem baixinho para não incomodar ouvidos mais sensíveis do que os meus. A música boa prolonga minha vida e assim ela vai me levando até o dia em que eu desgostar desse gênero que chamam de brega rasgado, um apelido que eu entendo como preconceituoso porque na verdade se trata de música sentimental. Não troco o Fernando Mendes por toda essa cambada de “novos” sertanejos que, diuturnamente, inferniza meus ouvidos quando tento ouvir alguma estação de rádio, principalmente porque a maioria canta se espremendo, como se estivesse com dor de barriga ou prisão de ventre. Um sertanejo cantando sempre me traz à memória a imagem de Estácio Brando!

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Cantor Fernando Mendes e o animador Chacrinha

Salve esse sádico poeta de Minas Gerais, de 65 anos, que alimenta espiritualmente a alma dos cornos, românticos, desiludidos, conformados e demais sofrentes dessa vida de touro que Deus nos deixou. Lembre-se: se um dia você cair na rua, estrada ou no caminho estreito pensando que foi pelo peso do seu chifre, não acredite nem desanime, pois isso pode ser coisa que puseram na sua cabeça; então, levante-se, erga a cuca perturbada, passe um protetor solar na testa e siga em frente porque a sua vida só pertence a você e a Deus, embora sua mulher, sem que você saiba, se divida como aquelas frutas fatiadas que se vendem na entrada do Parque da Jaqueira em Recife. Mas depois ela não volta inteirinha pra você? Então, conforte-se e conforme-se ou abra uma franquia, pois tudo isso faz parte da vida de um corno. Agora só falta mesmo ouvir Fernando Mendes, o homenageado de hoje, que canta “Prece ao Vento”, de Alcyr Pires Vermelho, Gilvan Chaves e Fernando da Câmara Cascudo, uma toada praieira ao estilo Dorival Caymmi, onde apresenta todo seu talento de intérprete. Depois, “Sádico Poeta”, de sua autoria, esta mais inclinada às almas vadias. Eita brega danado de bom!

Por Abílio Neto

One comment

  1. Tão bom. Tanto, quanto tudo que recolhe, amigo apreciador do belo. Desde a primeira coleta dos versos até o texto delicado e animado que produziu.Fernando Mendes já o conhecia, mas é sempre bom revê-lo!!!

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