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Os naturalistas alemães e o Rio São Francisco

Por Abílio Neto

Deu no blog de Carlos Brito em 05/02/2015:

“O baixo nível do Lago de Sobradinho (BA), que está com cerca de 18% de sua capacidade, pode dificultar a captação de água nos perímetros irrigados de Petrolina, informou ontem o secretário de Ciência e Tecnologia do município, Newton Matsumoto. De acordo com Matsumoto, esse problema pode comprometer a captação para os canais de irrigação do município, o que poderia provocar, segundo ele, um colapso hídrico na cidade. De acordo com a assessoria da prefeitura, o governo municipal já entrou em contato com o ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi, e o mesmo se comprometeu em avaliar a situação e arrumar uma solução para o problema, que pode comprometer a fruticultura irrigada na cidade, além de provocar vários outros transtornos para a população. Outras cidades da região já sofrem com problemas relacionados à captação de água, a exemplo de Sento Sé e Remanso, ambas no norte do Estado da Bahia, e bem próximas a Petrolina. Enquanto isso o nível dos principais reservatórios de água do país só cai.”

Para entendermos essa situação, vou dar um pulo no passado. É quase ontem!

Os naturalistas Johann Baptist Von Spix e Karl Friedrich Philipp von Martius chegaram ao Brasil na segunda década do século XIX. Eles integravam uma comitiva de estudiosos das mais variadas ciências naturais da Europa. Dentre eles estavam Spix, zoólogo nascido em Höchstaedt (1781) e Martius, nascido em Erlangen (1794). Os dois eram oriundos da Baviera, região hoje pertencente à Alemanha.

A chegada deles ao Brasil se deu em 1817 no Rio de Janeiro. Nos primeiros meses de sua estada, exploraram as matas de Santa Tereza, Tijuca, Niterói e outras. Um ano depois se embrenharam pelo interior brasileiro, visitando São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas. A expedição durou quase três anos e foi realizada, na maior parte, em lombo de burros ou em canoas.

Quando retornaram à Europa, em 1820, Spix tinha 39 anos e Martius 26. Era hora de organizar todo o material coletado. Foi uma época de intensa produção intelectual, onde foram elaborados tratados e obras de botânica, taxonomia, fitogeografia, etnografia, linguística, costumes indígenas e plantas medicinais. Martius confeccionou um detalhado mapa fitogeográfico do Brasil, que foi dividido em cinco províncias, de acordo com a vegetação que aqui encontrou: flora amazônica, região das caatingas, Mata Atlântica, cerrado e região das matas de araucária e dos campos do sul. Mata Atlântica está grafada com maiúsculas porque foi justamente batizada por esses cientistas.

É importante lembrarmos hoje de algo que escreveram sobre o Rio São Francisco:

“Depois de havermos forçado caminho através dessa orla de mato, que o povo chama de alagadiço, cheios de alegria, avistamos o Rio São Francisco, correndo em majestosa calma diante de nós. O rio mede aqui quase meia hora de largura, apertado na margem oposta por uma orla de alagadiço, coberto de cerrado. (…) ocorreu-me o voto para que já, sem demora, se pudesse dar início a investigações deste gênero na terra fecunda, antes que a mão destruidora e transformadora do homem tenha atalhado ou desviado o curso da natureza.”

Comprova-se facilmente com uma rápida pesquisa na História que esses alemães vieram ao Brasil com objetivos muito mais nobres do que aqueles que apareceram aqui somente para roubar nossas riquezas. E diante dessa famigerada e superfaturada transposição do São Francisco, o que sobrará do rio diante de nossos complacentes olhos?

Acredito firmemente que Lula e Dilma não demonstraram jamais as preocupações ecológicas desses alemães Spix e Martius que já naquele tempo falavam na mão transformadora e destruidora do homem. Ecochatos já em 1820, ou simplesmente amantes da natureza?

Os naturalistas alemães e o Rio São Francisco
Lago do Sobradinho

A primeira vez que vi o São Francisco foi, ainda lembro, no início da década de setenta do século passado. O sertão pernambucano passava por uma seca danada, e descia este relator de Salgueiro com destino a Petrolina. Passei por Cabrobó seguindo aquelas estradas retas do sertão que parecem não ter mais fim. De repente, após uma subida, eis que de repente surgiu uma magnífica visão de um espelho d’água embelezando uma cidade que não por acaso chamava-se Santa Maria da Boa Vista. Era uma imagem deslumbrante: a cor esverdeada das águas do Velho Chico contrastava com toda aquela paisagem triste da seca que eu tinha deixado para trás. Parei o carro e agradeci a Deus por ter nascido com a visão! Mas perguntei a mim mesmo: como é que tantos morrem de sede e de fome com tanta riqueza nesse riquíssimo vale? O tempo e as ações governamentais que vieram depois não responderam nunca a minha pergunta. Surgiram após algum tempo o imenso lago de Sobradinho, Itaparica e os projetos de irrigação às margens do rio, do lado baiano e pernambucano, porém os sedentos e famintos continuam habitando nas suas proximidades. O projeto de Lula veio para acabar com todo esse drama ou para dar dinheiro às empreiteiras que o tentam executar há 12 anos em troca de gordas comissões? As ações de todos (sem exceção!) os nossos políticos são sempre duvidosas. Em quem acreditar hoje em dia?

Lembro que, quando a represa de Sobradinho alagou pequenas localidades, muitos morreram de desgosto por terem que abandonar tudo que tinham construído ao longo de suas vidas. Eram as comunidades de Remanso, Casa Nova, Sento Sé e Pilão Arcado. Elas foram homenageadas no lindo xote “Sobradinho”, de Sá e Guarabyra. A poesia desta música nos remete a um saudosismo sem tamanho! Mas será que a profecia do beato Conselheiro não acontecerá em sentido contrário do que afirmou, isto é, com o sumiço total das águas do rio da integração nacional? Jamais duvide da capacidade do homem em destruir a natureza!

“O homem chega
Já desfaz a natureza
Tira a gente, põe represa
Diz que tudo vai mudar
O São Francisco
Lá pra cima da Bahia
Diz que dia menos dia
Vai subir bem devagar
E passo a passo
Vai cumprindo a profecia
Do beato que dizia
Que o sertão ia alagar
O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Adeus Remanso, Casa Nova, Sento Sé
Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir
Debaixo d’água, lá se vai a vida inteira
Por cima da cachoeira, o Gaiola vai subir
Vai ter barragem
No sertão de Sobradinho
E o povo vai se embora
Com medo de se afogar”.

Isso ainda dói no coração mesmo tendo se passado tantos anos!

Na postagem da música, uma homenagem ao saudoso Zé Rodrix que chegou a compor um trio com Sá e Guarabyra na época que surgiu o chamado rock rural. Depois seguiu carreira solo.

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