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O amor, o samba e a depravação

Quando se ouve o samba antigo (de 1933) “Na Aldeia”, sente-se de imediato que ele é lindo, porém o amor não cabe inteiramente dentro dele porque o samba é filho da dor, enquanto o amor é uma fantasia que deixa a gente em gozo de folia de carnaval o ano todo. O amor é filho da alegria. Quem tiver argumentos contrários, que faça o favor de guardá-los para si mesmo e não provoque na sua paz celestial o poeta Vinícius de Moraes, um homem que verdadeiramente soube amar, tanto que teve nove mulheres oficiais. Imagine o tamanho do rebanho das avulsas!

O zelo do homem pela mulher que escolhe para amar quando se transforma em música é uma coisa belíssima. Desde menino que eu sou apaixonado por esse samba gravado por Sílvio Caldas, em início de carreira, chamado “Na Aldeia”. Nessa música, todos aqueles bons propósitos de que são dotados os homens que verdadeiramente amam, estão expostos de forma cristalina e harmoniosa.

carnavalO samba foi feito a três mãos: Sílvio Caldas, Caruzinho e De Chocolat. Alguns nem reconhecerão na gravação a voz dele. Mas é. E foi arranjado e acompanhado por Pixinguinha e seu então conjunto chamado “Diabos do Céu”. Observem que o pai da MPB faz um pequeno solo de saxofone, enquanto a letra da canção não é repetida. Trabalhei duro neste áudio (faz uns 10 anos, lá por volta de 2004/2005) para deixá-lo com uma qualidade sonora razoável, tudo em nome do amor pela música! Vocês mais velhos devem lembrar do som horroroso que tinha o 78 RPM. E o da década de 30 do século passado, nem se fala, porque era uma lástima.

Disse muito bem, indiretamente, o letrista desse samba: o amor é coisa de gente da aldeia. Se você for da metrópole, será melhor ficar sem amar, ou então se mude para uma aldeia e arrume um amor que o convença de que ainda morrerá disso. Existem mil e um efeitos colaterais para quem ama nas grandes cidades. Pergunte ao seu médico se estou falando a verdade ou não. Risos!

Para finalizar, um pequeno lembrete a quem interessar possa: a imoralidade não cabe no samba como tentou fazer a Mocidade Independente de Padre Miguel, no carnaval deste ano, com aquela suruba em plena Sapucaí.

Carro alegórico da Mocidade Independente de Padre Miguel no desfile do carnaval de 2015
Carro alegórico da Mocidade Independente de Padre Miguel no desfile do carnaval de 2015

Basta lembrar de Nelson Cavaquinho, Cartola e Paulinho da Viola para saber que o samba é sagrado. Não sou careta, porém acho que tudo tem um limite e me irritei: só não digo que se fodam o carnavalesco e os rapazes e moças alegres daquele deprimente terceiro carro alegórico porque “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Eu me consultei com Caetano Veloso e, ouvindo seus conselhos, decidi que por mim eles estão perdoados.

Nem quis saber antes do enredo do samba para tentar me convencer se cabia ou não aquele exagero. Eu me ative apenas ao visual apresentado e, sinceramente, não gostei. Peço perdão a quem achou tudo lindo e joiado. Que saudade do Joãozinho Trinta! Ciente agora do enredo da escola, tenho certeza de que zombaram do Apocalipse, apesar da liberdade de pensamento que o tema provoca, mas a Mocidade pagou caro pela ousadia.

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Carro alegórico da  no desfile do carnaval de 2015

 Por que estou condenando isso um mês após o adeus do carnaval de 2015? Porque sou um protestante retardado, ora bolas. Só um mês depois, ao rever aquelas imagens da Sapucaí, concluí que “o Espírito Santo no templo do samba” ainda merece respeito!

Por Abílio Neto

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