sábado , dezembro 3 2016
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Sem rumo e sem prumo por causa do amor

Por Abílio Neto

Saudade, desamor, desilusão e decepção amorosa são temas que sempre eu procurei na internet nestes tempos modernos. Vejo que os poetas, prosistas e compositores de música popular são pessoas que têm alta dose de sofrência no sangue.

E no mais das vezes eu fiz essa busca por gente que sofre para avaliar o tamanho do nosso sofrimento. Será que o dele ou dela é maior do que o meu ou do amigo que divide a mesa de bar? Não é para servir de consolo, mas se for feita uma pesquisa séria, esta constatará que existem mais pessoas subindo a ladeira do penar amoroso do que em gozo da felicidade que o amor recíproco proporciona, lá na planície do alto. Sofrer por amor é uma sina da humanidade!

dominguinhos
Sanfoneiro Dominguinhos nasceu 12/02/1941 em Garanhuns-PE

Em 2009, ou 2010, por aí, eu li uma prosa de Daniel Campos que me impressionou. Vou transcrevê-la para vocês. Chama-se “Saudade de Marilene”:

“Sentir saudade é ter uma faca apontada para o pescoço. Entre o passado e o presente, qualquer movimento mais brusco pode ser fatal. A vida com saudade é extremamente vinculada ao tempo presente. O que passou virou saudade e o que virá não aumenta nem diminui a saudade. Por isso, a saudade é permanente, afiada e corta mais do que faca de açougueiro. Pode pedir, pode suplicar, pode ajoelhar, pode rezar, pode chorar, pode negociar com o destino, com a vida, com o tempo, com os deuses… chova ou faça sol, a faca continuará roçando seu pescoço. Não é à toa que dizem que saudade mata. E eu já estou quase morrendo.

Marilene, por onde anda você? Eu hoje não velejei em seus olhos oceanos. Eu hoje não me deitei em sua boca de pano. Eu hoje não me tatuei em seu corpo de tons de piano. Eu hoje não amanheci. Aliás, eu acho que hoje somente morri. Eu hoje ainda não me encontrei. Aliás, acho que há dias eu me deixei em suas mãos. Ai, onde estão as suas mãos que não me pegam, que não me carregam, que não me levam a ti? Ai, onde estão as suas mãos de papel que não me acariciam, que não me extasiam, que não me irradiam um pouco do seu céu?

Eu quero, eu preciso, eu desejo ouvir a sua voz, ao menos mais uma vez. Eu não me aguento longe de você. Longe eu sou ferida aberta sem unguento. Longe eu sou mais um desses finais sangrentos. Longe falta tudo, falta mundo, falta alento. Ah! Marilene, por onde anda você? O amor é um esmerilho a afiar a faca da saudade que coloca vida e morte, lado a lado, nas fiadas do meu pescoço. A saudade é abstrata e dói em carne e osso. A saudade é uma queda livre que me leva ao fundo do poço.

Ah! Marilene, se depois de tantas quedas e facadas, eu ainda puder me acabar em seu dorso…”

Puxa a vida, sangrei agora relendo a sofrência deste moço! Sou solidário na sua dor. Marilene, você é uma ingrata!

O nosso grande e saudoso mestre Dominguinhos que, se vivo fosse, completaria 74 anos neste 12 de fevereiro, também era uma pessoa sofrente. E deixou isso registrado em seu vasto repertório de músicas gravadas, dele ou de outros autores. E também em músicas suas com parceiros que foram eternizadas por outros artistas. É por isso que o compositor Onildo Almeida disse em entrevista (faz muito tempo!) que não o considerava como o legítimo sucessor de Luiz Gonzaga porque ele se desviou do seu caminho. Que poeta mais sem noção de sofrência, não é mesmo? Eu gosto muito de Onildo, mas acho que dessa vez ele falhou.

Tanto ele está errado que vou colocar para audição um xote sofrido de Julinho do Acordeon em parceria com Chico Xavier. Todas as músicas de Julinho com esse autor têm letras, as quais foram colocadas pelo segundo, porque, como se sabe, Julinho era um tremendo melodista. Assim sendo, “Eu Vi Você Casar” tem letra, mas não há um cristão neste mundo que descubra qual foi o cantor ou cantora que gravou esta página sonora de sofrimento. Eu dou um doce a quem descobrir!

Pois bem, graças a Dominguinhos, temos o resgate do lindo xote “Sem Rumo e Sem Prumo”, da dupla citada acima, que ficou belíssima na voz do maior acordeonista do Brasil. Foi gravada em 1992 e consta do LP “Garanhuns”. Sinceramente, dá uma dor danada no peito ouvindo-o cantar esta música. Cada vez que a escuto, sofro pra caramba. Confiram!

One comment

  1. “Sem rumo e sem prumo por causa do amor” – Texto homenagem do nosso grande crítico, escritor e amigo mestre Abílio Neto, nos brinda com esta formosura de conteúdo.

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