sábado , dezembro 3 2016
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O amor, o samba e a balada

Por Abílio Neto

Um samba cabe num amor, mas um grande amor não cabe num samba. De jeito nenhum! Espertos, os homens quando se apaixonam, a primeira coisa que pensam é tornarem-se posseiros não somente do coração da amada, mas de todo seu corpo e até de seus pensamentos. Até os fins dos tempos ainda aparecerá um corno que vai conseguir inventar um aparelho para fotografar tudo o que a mulher pensa, a fim de satisfazer milhares de outros cornos deste planeta ávidos por essa invenção.

Enquanto isso, a mulher só pensa em ser livre e assim poder dar-se e ofertar-se a quem quiser. O homem, quando no altar coloca uma aliança na mão esquerda da sua noiva, está ali gritando solenemente para todos os convidados e quem mais o souber, o seguinte: esta mulher a partir de hoje passou a ser propriedade minha, portanto não se atrevam nem olhar para ela, que dirá tocá-la ou abraçá-la! Às vezes não se completa um mês depois da cerimônia para o marido ficar com cara de triste, assim como já dizia o Chiquérrimo num dos seus sambas: “atrás de um homem triste há sempre uma mulher feliz…”

Depois do casório, segue a mulher para a sua gaiola chamada de “lar” com um cadeado na mão em forma de argola. É o símbolo da opressão. Coitadas, muitas reclamam que a partir dali não podem mais sair sozinhas, encontrar as amigas ou até ir comprar um sapato novo. No fundo, o marido tem receio de que a mulher ao cruzar as pernas para provar o calçado, mostrará algo proibido ao vendedor da loja. Visitar os pais sozinha? Nem pensar. Tem que ir com o ciumento junto. E ir só ao dentista? Neca de pitibiriba… aquela cadeira reclinável é um perigo! Eu exagerei na dose? Pois sim, muitas moças se casam de livre e forçada vontade! Pesquisem.

A imaginação do homem (marido) neste caso é bastante fértil, compreensível e toda baseada numa ilusão. A fútil ilusão de que todos os outros homens não prestam e somente ele é que deseja o bem da sua doce e fiel amada. Pois que acredite a mulher nessa bobagem porque na primeira chifrada que ela tomar, a verdade virá à tona: a cerca foi feita para o homem pular porque ele é forte e viril e a mulher para viver dentro dela porque é fraca e vulnerável e assim precisa da sua proteção. Na relação amorosa, quase sempre quem age como um coronel da Gestapo é o homem!

E quando a mulher dá um pulinho (não um salto de João do Pulo!) o sujeito vira uma fera e bate nela ferozmente. Isso quando não mata! O que eu já soube de casos de amigos meus que bateram ou batem descontroladamente em suas mulheres, ex-noivas, ex-companheiras, ex-tudo, por questões de ciúme é de estarrecer. Fui colega de trabalho de um que esbofeteou a noiva, mas a família dela se tornou cúmplice dele ao incentivar o casamento. Claro, o cara era um engenheiro! Como é que pode isso? Conheço gente até do meio artístico, poeta, sanfoneiro, compositor, baterista e até cantor que já se meteu nessas barbaridades. Não é nenhum caso isolado não, são vários. Lembro-me de um tocador de pife de Cupira que, certa vez, deu uma pifada tão danada na cabeça da sua companheira que levantou um galo do tamanho do Galo da Madrugada, no entanto o pife não quebrou. Pense numa madeira resistente! Mas eu continuo com meu silêncio de pedra tumular! E pedra só canta na música de Dominguinhos. Tenho é dó dessas mulheres que se iludem com certos músicos e poetas cachaceiros.

Conforme me acusava um amigo meu lá de Caruaru, não defendo nenhuma filosofia cornista nem incentivo a que mulher alguma não seja fiel numa relação de amor porque se ela sentir que não conseguirá, melhor ficar ajudando os amigos, costurando pra fora ou fazendo igual a tico-tico no fubá, como diziam antigamente. Hoje, nestes tempos modernos, me parece que a tendência da maioria da mulherada é tornar mais forte e vigorosa a declamação do poema das rolinhas. Não posso dizer que estejam erradas. Tudo é uma questão de opção e evolução das eras, porque já pregava há vários séculos a doutrina espírita que “neste mundo, nada e ninguém nos pertence”. Os fãs de rock daquele saudoso bar lá do Pina, onde Chico Science começou a carreira, diziam o mesmo. Uma noite em que eu estava lá, um bêbado trepou em uma mesa e falou bem alto no meio do fumacê: “este mundo é uma merda, então o amor deve ser livre”. Um profeta!

Depois dessa nova mentalidade do mulherio, os homens passaram a se sentir profundamente infelizes, no entanto, engoliram ou pareceram aprovar a nova ordem mundial feminista. Claro, eles sabem tirar proveito disso. Assim sendo, no Brasil, casar passou a ser uma opção entre o samba e o amor ou entre o amor e a balada. É melhor do que ter que optar entre o inseto e a inseticida!

O cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio
O cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio

No passado, o sambista infeliz no amor, escrevia desta maneira: “tire o seu sorriso do caminho/que eu quero passar com a minha dor…” Já o forrozeiro, na singeleza da sua linguagem, cantava ao se aproximar o século XXI: “quem for feliz no amor que levante o dedo/e responda sem medo se verdade for…”

Sérgio Sampaio CD 25 anos
Sérgio Sampaio CD 25 anos

 

Sérgio Sampaio fumando

Sérgio Sampaio fumando

Mas ninguém nesse assunto se compara ao saudoso Sérgio Sampaio, radialista, cantor, compositor e produtor, que também era de Cachoeiro do Itapemirim/ES, morreu aos 47 anos em 1994, porém para mim vale por 10 Roberto Carlos. Quando ele canta “Em Nome de Deus”, eu sangro junto e quando a balada termina, procuro pela respiração para saber se vivo ainda estou. Que terra abominável é o Brasil quando se trata de reconhecer talento artístico! Não acredita? Então ouça sua voz e seu violão e se pergunte: quantos artistas da MPB com o talento de Sérgio Sampaio surgiram neste vasto e vil Pindorama, terra de safadeza, apadrinhamento e corrupção?

“Eu nunca pensei que pudesse querer
Alguma mulher como quero você
Se o mago soubesse
E juntasse o meu nome em S
Ao seu nome em C
Nas cartas de todo tarô que houver
Em todo o I-Ching eu podia não crer
Mas tudo é tão verde em seus olhos
Não dá pra não ver
Você que se esconda, que eu vou procurar
Você nem se iluda, que eu vou lhe encontrar
Você pode ir e sair e sumir por aí
Que não vai se ocultar
Eu vejo seu rastro onde ninguém mais vê
Eu pego carona até na Challenger
E vou nos anéis de Saturno buscar por você
Sem ser João Batista, você batizou
Meu corpo na crista das ondas do mar
E aí me abriu feito ostra
E colheu minha pérola pra Iemanjá
Agora que estou à mercê de sua luz
Em nome das águas lá de Bom Jesus
Em nome de Deus, me carregue
E me pregue em sua cruz.”

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