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A falta que faz o forró de duplo sentido

Por Abílio Neto

O começo da década de noventa trouxe novidades negativas para o forró. Aquele forró de duplo sentido, safadinho e gostoso, começou a morrer. Com o surgimento das bandas de forró de plástico do Ceará, tentou-se fazer no gênero uma coisa boba e romântica que foi crescendo e se estendendo até alcançar o forró de raiz. Neste último não demoraram a surgir os xoteadores melosos que procuraram dar prosseguimento no que Accioly Netto havia começado desde a década de oitenta.

E a coisa não ficou diferente com a aparição do que se convencionou chamar de “forró universitário”. Por sua vez, uma linha do forró de plástico passou a agredir a mulher com suas letras horrorosas (como no funk), mas, por incrível que pareça, obteve o apoio do novo público consumidor de “forró”, a juventude.

Com a morte de grandes nomes do forró tradicional, os incentivadores desse tipo de música barata ficaram com a faca e o queijo. João Silva foi achado morto em Recife, em dezembro de 2013 e, em 2014, Clemilda encantou-se. Continua vivo, graças a Deus, o nosso Genival Lacerda, com toda sua irreverência. Faço alusão somente a esses porque o segmento é bem mais robusto.

Esses compositores de hoje não têm a mesma criatividade de João Silva que, na década de setenta, fez aquele que eu considero a maior música de duplo sentido da história do forró. Ele a compôs sozinho, porém teve que dar parceria a um certo produtor musical a fim de vê-la gravada. Seu Luiz Gonzaga, que não aprovava coisas maliciosas no gênero musical nordestino, passou a chamá-lo de “nojento”, isso quando incrementaram suas parcerias a partir do início da década de oitenta. E olhem que João Silva até pôs uma letra quase assim em “Pagode Russo”, uma polca instrumental de Luiz Gonzaga, gravada na década de quarenta. Lá no agreste de Pernambuco, a matutada só cantava uma parte da letra assim:

“Entra cossaco
Cossaco dança agora
Na dança do coça cu
Não fica com o saco fora”

Acho que Seu Luiz chegou a saber dessas coisas, mas aí já era tarde demais. A música fez mais sucesso com letra do que na fase instrumental. Seu Luiz vendeu horrores de discos. Ganhou até prêmios!

Seu João Silva dava aulas nesse tipo de música. Para fazer “A Cacimba da Viúva”, ele se valeu de uma expressão muito utilizada no Norte do Brasil: “pinguela”. A pinguela, lá para aquelas bandas, significa uma pequena ponte improvisada, cheia de madeira, tábuas e pregos. No Nordeste, pinguela faz parte da intimidade da mulher. O primeiro cantor que a gravou, Osvaldo Oliveira, também já falecido, destacou isso em uma fala na gravação. Depois disso, o cantor alagoano Edson Duarte, que começou a carreira com o nome de “Pirril”, a regravou em grande estilo, com arranjos e sanfona do saudoso mestre Chiquinho do Acordeon, falecido em 1993.

A falta que faz o forró de duplo sentido
Compositor João Silva (esquerda) e Osvaldo Oliveira(direita)

Então, a gente olha para o presente, com esses forrós adocicados, e sente saudades desse passado que nem está tão distante assim. Vamos relembrar o paraense Osvaldo Oliveira, assim como o pernambucano João Silva em “A Cacimba da Viúva”. Tirem as crianças da sala!

A CACIMBA DA VIÚVA (João Silva e Pedro Maranguape)

Arrebentaram a pinguela da viúva
Do finado Mané do Cacimbão
Água pra gente agora só da chuva
A cacimba não tem água mais não
O finado quando ainda vivia
Tudo bem era bom conservador
Era prego na pinguela todo dia
Dava água e nunca se incomodou

Mas a viúva achando um desaforo
Uma falta de consideração
Já falou em fechar sua pinguela
Diz que em breve vai pôr tudo no chão
Botou pregos, arames e madeiras
No lugar que passava, pôs cancela
Nem que morra na vila, tudo seco
Ninguém mexe mais na pinguela dela

Na pinguela dela
Na pinguela dela
Água lá nem de moringa
Passa na pinguela dela.

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