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O nome Joana Batista Ramos deve ser varrido do Frevo Vassourinhas

Por Abílio Neto

Nada mais polêmico em Pernambuco do que o frevo que é considerado o hino do seu carnaval: o frevo nº 1 do Clube Vassourinhas. Vou dar um pulo no passado recente. Vários acontecimentos importantes foram comemorados em Pernambuco em 2009: cem anos de D. Hélder Câmara e cem anos de N. Senhora do Carmo como padroeira do Recife. Estes acontecimentos os pernambucanos puderam comemorar sem aperreio. E os 100 anos do frevo dos Vassourinhas que dizem os ter completados em 07 de janeiro de 2009? Esse não dá para comemorar. Vamos aos fatos:

Mathias Theodoro da Rocha nasceu em 1864. Foi ele quem compôs o hino do Vassourinhas. Isso é indiscutível. Os dados sobre a vida de Mathias da Rocha são muito escassos. Sabe-se pelo depoimento assinado em 1977 por Nô Pavão, testemunhado por Jasson da Silveira Barros, Valdomiro Gomes da Silva e Lindolfo Edwige de Souza e registrado em cartório, que ele participou da fundação do Clube, junto com outras pessoas, inclusive o seu irmão, conhecido como Cabeça de Pau. Segundo Nô Pavão, Mathias seria autor de outra música para Vassourinhas, mas não recorda o nome.

Olhando-se um retrato existente na sede de Vassourinhas, Mathias da Rocha era afilado e negro. Em outro documento encontrado na sede do mesmo clube, respondendo a uma carta do Sr. Mário Leite, em 1949, o ex-presidente Severino Oliveira adianta que Vassourinhas “foi tirada por Mathias da Rocha e sua prima Joana Batista Ramos, no dia 6 de janeiro de 1909. Que a compôs com seu violão no arrabalde de Beberibe em um mocambo”. Portanto, além de fundador do Clube, autor da música composta em 1909, era elegante, maestro, tocador de violão, primo de Joana Batista Ramos e autor de outra música para o seu clube.

Então foi certo comemorar os cem anos do tal frevo em 07 de janeiro de 2009? Não. Por que? Há controvérsias. Então, vou a elas: o jornal Diário de Pernambuco, em 1977, publicou extensa reportagem sobre o Clube dos Vassourinhas, que, naquela ocasião, completava 88 anos de fundação. Na matéria do famoso matutino, foi utilizado um depoimento prestado no mesmo ano por João Batista do Nascimento, apelidado Nô Pavão, antigo sócio e ex-presidente do clube. Nô Pavão nasceu no Beco do Ciúme, Freguesia de Santo Antônio, Recife, em 1885. No final da citada publicação se faz esta indagação: “Teria nascido neste dia a famosa marcha n° 1 do Clube cujos versos estão pintados numa parede?” Nô Pavão afirmou ser Vassourinhas de 6 de janeiro, mas sua instalação ocorreu em 7 de fevereiro de 1889. Como ele se lembrava disso se havia nascido quatro anos antes?

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Frevo Vassourinhas

Comprovadamente o Clube Vassourinhas surgiu no carnaval daquele ano, desfilando bem trajado, colhendo aplausos com seus toques, cantos e dançados (sic), isso de acordo com registro do já citado Diário de Pernambuco na forma de nota, publicada em 5 de março de 1889.

Voltando mais uma vez à reportagem citada, nela não está incluída Joana Batista Ramos como fundadora da nova agremiação, conforme o depoimento de Nô Pavão. Aparecem, citados por ele, o alfaiate Andrade, Carrinho, João do Carmo, Epifânio, Matias da Rocha e seu irmão Cosme, esse conhecido pelo apelido de Cabeça de Pau.

Mas prestem muita atenção nesta afirmação pesquisador Evandro Rabelo da FUNDAJ: “Examinando detalhadamente alguns estudos publicados em livros, revistas, jornais, contracapa e encarte de discos sobre o carnaval do Recife ou sobre a música popular brasileira, nos deparamos com afirmações contundentes: o frevo ou marcha Vassourinhas, composição de autoria de Joana Batista Ramos ou Joana Batista que fez os versos e Teodoro Matias da Rocha ou Matias da Rocha autor da música, foi composto no dia 6 de janeiro de 1889. No mesmo dia, mês e ano em que surgiu o Clube”.

O pior da história desse frevo vem agora, em escrito de Leonardo Dantas: “O maestro Francisco Correia de Crasto, da Jazz Band Acadêmica, em depoimento pessoal, diz ter encontrado na cidade de Bom Jardim (Pernambuco) partitura datada de 1873, com a marcha d’ “O Homem da Madrugada” daquele município. Em compasso binário, andamento allegro, a segunda parte da melodia é totalmente igual à Marcha n.º 1″ do Clube Vassourinhas, composta em 1909 por Matias da Rocha e Joana Batista, cujos primeiros versos foram, possivelmente, adaptados de cantiga popular de origem portuguesa e que hoje poderia ser classificada como frevo-canção”. Então, Vassourinhas é resultado de um plágio, tanto na melodia quanto na letra!

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Matias Rocha

Se o frevo foi composto na data da fundação do clube, que, segundo seu estandarte, foi mesmo 1889, ficou estranha a comemoração dos 100 anos do frevo feita em 2009, abonada até por gente da estirpe do próprio historiador Leonardo Dantas da Silva, conforme se viu acima, que, além disso, escreveu famoso artigo sobre o assunto. Eis um pequeno trecho do que registrou:

“Um desses primitivos frevos, porém, veio a ser executado em todo Brasil, a Marcha nº 1 do Clube dos Vassourinhas, como se fosse o verdadeiro hino do Carnaval do Recife. Segundo o pesquisador Evandro Rabello, in Revista Arrecifes n.º 2 (1987), fora tal frevo composto por Matias da Rocha e Joana Batista Ramos em 6 de janeiro de 1909, conforme depoimento transcrito em 1949 no livro próprio do 2º Cartório de Registro Especial de Títulos e Documentos do Recife”.

A letra citada por Leonardo é esta:

Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar,} bis
Com pedrinhas de brilhante
Pra Vassourinhas passar.

Ah!… reparem meus senhores
O ‘Pai’ desse pessoal, }coro
Que nos faz sair à rua
Dando viva ao Carnaval

Se essa rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar} bis
Com pedrinhas de brilhante
Pra Vassourinhas passar

Somos nós os Vassourinhas
Todos nós em borbotão
Vamos varrer a cidade
Com cuidado e precisão,

Bem sabeis do compromisso
Que nos leva a assim fazer:
E mostrar nossas insígnias
E a cidade se varrer”.

Quando o grande Antonio Carlos Nóbrega gravou o frevo dos Vassourinhas no seu célebre disco “Pernambuco Falando para o Mundo”, ele cantou a letra acima pela metade, mas como se fosse a letra completa de Joana Batista Ramos.

Quem ouve estes versos “Se esta rua fosse minha/ eu mandava ladrilhar” tem a impressão de já tê-los escutado em marchinhas de roda antigas. É o meu caso. Quando eu tinha uns doze anos, uma prima de nome Nilza, de dezesseis, gostava muito de cantar esta marchinha nas cantigas de roda do município de São Joaquim do Monte, lá nas brenhas onde eu morava. Em função disso, danei-me a procurar de onde surgiu esta marchinha e vejam o que eu achei. É o depoimento brilhante do pesquisador carioca José Maria Campos Manzo. Ei-lo:

“Gostaríamos de aproveitar a oportunidade para tecer aqui alguns comentários que nos parecem oportunos para esclarecer certos equívocos que vêm se perpetuando por falta de elementos que possam aclarar definitivamente o assunto.

O primeiro deles está relacionado com a música Vassourinhas. Segundo Capiba escreveu na capa do LP – 25 anos de Frevo – a música teria sido escrita em 6 de janeiro de 1889 por Matias da Rocha (música e letra) e cujos versos eram os seguintes:

Somos nós os Vassourinhas
Todos nós em borbotão
Vamos varrer a cidade
Ah ! Isto não ! Ah ! Isto não !

Tu bem sabes o compromisso
Ah ! Isto não ! Não pode ser
A mostrar nossas insígnias
E a cidade se varrer

Ah ! Reparem meus senhores
O pai desse pessoal
Que nos faz sair à rua
Dando viva ao carnaval

Esta música, chamada ainda de marcha, era cantada quando os foliões do Clube Misto Vassourinhas regressavam à sua sede para recolher os estandartes do Clube e, por isso, era chamada de “marcha regresso.”

Diz textualmente Capiba: “Estes versos foram colhidos por mim na própria sede do conhecido Camelo de São José e diferem muito de uma letra que se diz ser dessa marcha e que começa assim: Se essa rua fosse minha, etc.”

Quem seria o autor da nova letra ?

Vez por outra aparece como co-autora da música, em partituras reproduzidas em catálogos das Editoras e mesmo em alguns discos, o nome de Joana Batista Ramos. Seria ela? Acreditamos que não pois na Discografia Brasileira em 78 rpm seu nome aparece duas vezes apenas em gravações realizas na Musidisc, em 1956 e na Chantecler, em 1961. Ora, esta letra já existia, pelo menos, desde 1945.

A primeira gravação da música com o nome de Frevo dos Vassourinhas nº 1 foi feita por Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara na Continental em 30.09.49. No disco a autoria é atribuída ao Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas. Na Discografia Brasileira em 78 rpm foi indicado como autor Matias da Rocha.

Em 1945, ou seja, 4 anos antes, Almirante que já gravara várias marchas pernambucanas, descobriu que a letra de uma canção de roda se encaixava corretamente na música dessa marcha. (O mesmo acontece com a letra de Ai que saudade da Amélia e o Hino à Bandeira). A cantiga de roda era assim:

Nesta rua tem um bosque
Que se chama solidão
Dentro dele mora um anjo
Que roubou meu coração
…………………………………
Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de brilhantes
Para o meu amor passar (ou passear)

Usou a segunda estrofe, escreveu mais duas outras e gravou-a com Déo e Castro Barbosa com o nome de Frevo número um e um subtítulo (Marcha Regresso do Clube Vassourinhas – Marcha Popular de Pernambuco – Adaptação de Almirante). O disco era o Continental nº 15.279-B. Aliás há vários casos parecidos na música popular brasileira. Quando um compositor descobre uma música muito popular e coloca nela uma letra sua ele chama esta operação de “um arranjo” seu. Veja o caso de Está chegando a hora (Cielito lindo) (Carmen Costa) um arranjo de Rubens Campos e Henricão e Amor delicado (Domínio Público) (Déo) “um arranjo” de João de Barro e Dorival Caymmi.

A letra de Almirante era assim:

Se esta rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar (estribilho)
Com pedrinhas de brilhante
Para meu bem passear

A tristeza Vassourinhas
Invadiu meu coração
Ao pensar que talvez nunca
Nunca mais te veja não

A saudade Vassourinhas
Enche d’água os olhos meus
Que tristeza Vassourinhas
Neste derradeiro adeus

Esta versão de Almirante para o frevo Vassourinhas foi a primeira que apareceu gravada no Rio de Janeiro. O sucesso foi enorme e a nova letra se espalhou pelo Brasil inteiro. Sem esta adaptação ou arranjo de Almirante, provavelmente o frevo Vassourinhas teria ficado no anonimato como ficaram, aqui no sul, muitos outros que fizeram sucesso em Pernambuco”.

Foi preciso que esse grande pesquisador caísse em campo para provar que Antonio Carlos Nóbrega e Leonardo Dantas Silva escorregaram feio nas cascas de bananas deixadas nas ruas por onde o Vassourinhas passou. E mais: o que se dá como letra oficial do frevo dos Vassourinhas hoje, é uma mistura da letra do Almirante com a do próprio maestro Mathias da Rocha. Que sendo assim, o nome de Joana Batista Ramos, em razão das pesquisas de Capiba e de José Maria Campos Manzo, deverá ser varrido da história do Clube Vassourinhas, dos discos e da memória do povo. É o mais sensato!

Mas se houve e há equívocos a se varrer do Vassourinhas, em relação a este frevo os músicos, no entanto, só têm acertado. Felinho, saxofonista pernambucano, ficou imortalizado com suas oito variações para esta marcha frevo. E cada músico que se preza, seguindo o exemplo de Felinho, ao executar esta música, procura dar o seu toque pessoal, o seu brilho próprio, o improviso.

Para finalizar, deliciem-se com as variações do saxofonista Felinho, executadas pelo mesmo, como solista da saudosa orquestra Mocambo, que era comandada pelo Maestro Nelson Ferreira. É um dos registros sonoros mais importantes da História do Frevo!

One comment

  1. Caro Abílio Neto,

    Nós pernambucanos e amantes do frevo,agradecemos pelo belo e incansável trabalho de pesquisa. Você é imprescindível e sem dúvida uma das maiores autoridades neste assunto.Mais um golaço de placa. Parabéns!

    Dalton Meira

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