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O Matuto e o Jumento Cego

Por Léo Medeiros

Esse poema matuto foi produzido na época que eu morava na cidade de Sobral, interior do estado do Ceará, terra que permaneci por 17 anos e onde fiz grandes amigos. O Matuto e o Jumento Cego faz parte do CD Minha Terra Meu Sertão que lançamos em 2010. O mesmo foi feito baseado em um causo que o escritor e folclorista cearense, Leonardo Mota relatou em seu livro Sertão Alegre.

Poema: O Matuto e o Jumento Cego

Tem matuto no sertão
Que num teve priviléjo
De um dia se abancá
Nas cadeira dum coléjo.
E mermo sem sabê lê
Consegue desenvoivê
As conta que lhe butá
Tem tanta da isperiênça
Sabe coisa da ciênça
De dotô si adimirá.

Tem deles que só em oiá
Pro coipo dum bacurim
Sabe quantos quilo dá
Qual o peso do toicim.
E cum seu jeito pacato
Passa bolo em quaiquer rato
Por mais sabido que seja
Compra, vende, dá trocada
E sai manso de inrascada
Como quem sai da igreja.

No sertão do siridó
O matuto zé ferrôio
Vendeu um jegue bonito
Gordo, mas cego dum ôio.
O ilustre comprador
Foi um homem de valor
Coroné da região
Por nome pedro cangaia
Que quando notou a faia
Fez a maió confusão.

Reuniu quato capanga
Dos mió que pissuía
E foi a boca da noite
Onde o matuto vivia.
Virado num cabilôro
Dixe o maió disafôro
Cum surtidos xingamento
Depois disso preguntô:
Pru que tu num avisô
O defeito do jumento?

– Vamincê vá discuipano
Mai na minha opinião
Eu sô franco em lhe dizê
Isso né defeito não.
– O coroné fumaçou
Cuspiu de banda e falou
Brabo feito um guaxinin
Essa é mermo de lascá
Eu tava pro bem mandá
Meus cabra lhe dá um fim.

Ainda num nasceu home
pra inganá Pedro Cangaia
onde foi que já se viu
oio cego num ser faia.
E o matuto outra vez
falou de modo cortez
coçando em riba do peito:
Me discuipe vamincê
inda num pude intendê
oio cego ser defeito.

Zangado mais do que tava
preguntou o coroné
se cegueira num é faia
Quem nasce cego o que é?
Tranquilidade o matuto
munto sabido e astuto
já responde num segundo
a cegueira na verdade
é uma infilicidade
maió que já deu no mundo.

Seu Pêdo bateu do pé
E parô cum a falação
Saiu sem tocá em zé
Por esse tá cum a razão.
E o cabôco pachola
Estudante da iscola
Da vida e nada mais
Mostrô cum essa lição
Que inziste no sertão
Munto matuto capaz.

Sobral, 14 de julho de 2006.

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