quarta-feira , dezembro 7 2016
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O cúmulo da Sofrência e o Xote de Julinho

Por Abílio Neto

Muito antes de Reginaldo Rossi cantar “saiba que o meu grande amor hoje vai se casar, mandou uma carta para me avisar, deixou em pedaços o meu coração”, um poeta lá de Caruaru com quem fui desabafar minhas mágoas por ter perdido um amor, no início da década de 70, me deu a entender que a dor dele era muito maior do que a minha, porque seu amor havia casado com outro e desfilava quase diariamente de braços dados com seu algoz na rua de um bar que ele frequentava.
O meu caso era mais simples: a moça que eu amava profundamente se casou com um primo meu e era muito feliz. Eu lamentava aquela situação, mas quem ama verdadeiramente quer sua amada ou amado feliz. Quem deseja outra coisa é porque nunca amou. Simples assim.

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capa do disco Forró Xote Choro e outros ritmos – Julinho do Acordeon

O nosso amigo poeta, saudoso José Pinheiro, farrista, cabeludo e cachaceiro, tinha as três qualidades que pai de moça nenhum queria para genro. E ainda por cima era poeta, desses de declamar em mesa de bar após encher a cara de cana. Eu não andava com gravador de fita cassete e nunca fui um gravador humano, mas a poesia do nosso poeta comunista (tinha mais esse defeito!) era digna de ser imortalizada. Ele não dava cópia para ninguém. A poesia continha uma beleza melancólica que eu nunca soube exprimir. E os versos finais foram feitos no capricho, tal e qual o choque brutal da sua dolorosa situação de amante abandonado: “Lascaram o meu amor”! Nunca me esqueci dessa frase poética.
Lembro-me agora também de Adelino Moreira que em “Pirraça” colocou:
“Por que será que a mulher que a gente deixa
Fica sempre mais bonita e parece mais feliz?”
Mas danado mesmo, uma coisa assim de sofrimento profundo, é o homem ver a sua amada casar com outro. Havia e há ainda algumas moças que exercem um profundo sentimento de piedade cristã e no seu exercício caridoso, enviam um convite de casamento para aquele a quem namorou ou de quem foi noiva. É por isso que a gente deve dar graças a Deus porque ele fez a mulher, tão boa de coração, sentimental e comovente. Outros são apaixonados pela noiva que vai ao altar, mas nunca tiveram coragem de revelar o seu amor.
Nestor Mayer em “Teu Casamento”, fala disso como ninguém:
“Ao som da ave-maria
Eu vi você casar!
Estavas tão linda, tão linda
E eu a chorar.
Vi, quando sorrindo entrastes na igreja
Vi, quando mil olhares para ti se voltaram
E pude perceber um Oh! De admiração
Uma exclamação em homenagem a tua beleza!
Vi o padre fazendo as perguntas de sempre
Ouvi quando dissestes o sim
O sim que te abriu as portas para uma nova vida.
Estás feliz porque teu sonho se realizou.
Estás feliz porque estás feliz!
Não imaginas, porém
Que no fundo da igreja
Onde ninguém me vê
Estou a chorar.
Não consigo vencer as lágrimas
Que teimam em rolar da minha face.
Choro!
Porque as cortinas do palco imaginário de meu sonho se fecharam
Porque os cisnes brancos que nadavam no meu lago de ilusão
Fugiram ao som da ave-maria que te casou
Ao som da ave-maria que definitivamente te separou de mim.”
É a coisa mais dolorida que já li em toda minha vida. Há aí muito mais sofrência do que nas músicas de Pablo, o baiano do “arrocha”.
Para fechar com chave de ouro, coloquei para audição o xote de Julinho do Acordeon e Chico Xavier, executado pelo primeiro, que tem este título sofrido: “Eu Vi Você Casar”.

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