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A Poesia Severina de João Cabral de Melo Neto

O autor de Morte e Vida Severina figura entre os maiores poetas do século 20.

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João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade do Recife (PE), no dia 09 de janeiro de 1920, na Rua da Jaqueira. Primo do poeta Manuel Bandeira e do escritor Gilberto Freyre. Passou parte da sua infância na área rural pernambucana, primeiro no Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, e depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos, no município de Moreno. É considerado um dos maiores poetas da Geração de 45 (movimento que se contrapõe aos “excessos do modernismo”). Desde jovem mostrou interesse pela literatura e, em especial, pela literatura popular (cordel). Apesar de ser cronologicamente um poeta da Geração de 45, João Cabral seguiu um caminho próprio, recuperando certos traços da poesia de Drummond  e Murilo Mendes, como a poesia substantiva e a precisão dos vocábulos, produzindo uma poesia de caráter objetivo numa linguagem sem sentimentalismo e rompendo com a definição de “poesia profunda” utilizada até então. Para o poeta, “a poesia não é fruto de inspiração em razão do sentimento”, mas de transpiração: “fruto do trabalho paciente e lúcido do poeta”.

A primeira obra de João Cabral, Pedra do sono (1942) apresenta uma declinação para a objetividade e imagem surrealista. Já em O engenheiro(1945), percebe-se que o poeta se afasta da linha surrealista, pendendo para a geometrização e exatidão da linguagem, como se ele próprio fosse o engenheiro, economizando as palavras (o material como se constrói) e a objetivação do poema (o propósito do uso do material – a construção terminada).

Nas suas principais obras, como O cão sem plumas (1950), O rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife (1954),Quaderna (1960), Morte e vida Severina (1965), A educação da pedra (1966),Funeral de um lavrador (1967), Museu de tudo (1975), A escola das facas(1980), Poesia crítica (1982), Agrestes (1985) e Sevilha andando (1989), o poeta revela uma preocupação com a realidade social, principalmente com a do Nordeste Brasileiro; reflete constantemente sobre a criação artística (Catar feijão – poema); aprimora a poética da linguagem objeto, definida como a linguagem que, pela própria construção, sugere de que assunto aborda (Tecendo a manhã – poema). Essa característica de sua obra constitui a principal referência do movimento concretista da década de 50 e 60 e de vários poetas contemporâneos, como Arnaldo Antunes, entre outros.

Morte e vida Severina (auto de natal pernambucano) é a sua produção mais popular. Nela, o poeta mantém a tradição dos autos medievais, fazendo uso da musicalidade, do ritmo e das redondilhas. Ela foi encenada pela primeira vez em 1966 no Teatro da PUC em São Paulo, com música de Chico Buarque. Foi premiada no Brasil e na França e, a partir daí, vem sendo encenada diversas vezes e até adaptada também para a TV. O poema narra à caminhada do retirante Severino, desde o sertão até sua chegada em Recife e, além das denúncias de certos problemas sociais do Nordeste, constitui uma reflexão sobre a condição humana.

João Cabral é considerado pelos críticos “não apenas um dos maiores poetas sociais, mas um renovador consistente, instigante e original da dicção poética antes, durante e depois dele”. Ele e Graciliano Ramos possuem o mesmo grau ético e artístico, um na poesia, o outro na prosa, que objetiva com precisão uma prática poética comum: deram à paisagem nordestina, com suas diferenças sociais, uma das dimensões estéticas mais fortes, cruéis e indiscutíveis que já se conheceu.

Por Natanael Lima Jr poeta, pedagogo e produtor cultural

Fonte: Domingo Com Poesia

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