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Autor de livro revela como os estúdios de Hollywood cederam a Hitler

Segundo livro de estudioso de Harvard, produtores norte-americanos dos anos 1930 "colaboraram" com os nazistas com cortes em filmes e autocensura

Reprodução

O Grande Ditador

Chaplin na famosa paródia de Hitler em "O Grande Ditador"

O autor de um livro polêmico a causar comoção em Hollywood por expor a colaboração entre os grandes estúdios e a Alemanha nazista na escalada para a Segunda Guerra Mundial defendeu suas alegações ao Observer.

O estudioso de Harvard Ben Urwand passou uma década vasculhando arquivos alemães e norte-americanos. Ele disse: "Quero revelar um episódio escondido da história de Hollywood que não foi relatado com precisão".

A interpretação desse relacionamento feita por Urwand é discutida por outros estudiosos do período. Ele alega que os chefes dos estúdios de Hollywood, muitos deles judeus refugiados recém-chegados da Europa do Leste, trabalharam entusiasticamente com os censores de Hitler para modificar filmes, ou mesmo cancelaram totalmente produções para proteger o acesso ao mercado de cinema alemão. "Na década de 1930 os estúdios de Hollywood não apenas colaboraram não fazendo filmes que atacassem os nazistas, como também não defenderam os judeus ou abordaram a perseguição aos judeus na Alemanha", disse Urwand.

O livro, The Collaboration: Hollywood’s Pact with Hitler {“A colaboração: o pacto de Hollywood com Hitler”), com publicação marcada para novembro, alega que a relação era tão estreita que a MGM, o maior estúdio na época, chegou a investir no rearmamento alemão para contornar restrições de remessa de divisas.

"Colaboração: não fui eu quem inventou a palavra", disse Urwand. "Encontrei-a em materiais de ambos os lados. É a palavra habitualmente usada para descrever este relacionamento." Urwand disse que o alemão que dirigia a MGM falava com a imprensa alemã sobre "colaboração satisfatória de ambos os lados".

"É uma colaboração no sentido de que os executivos do cinema de Hollywood e as autoridades nazistas realmente colaboram e os nazistas têm a palavra final", disse Urwand. "Eles não queriam perder seus negócios. Não queriam ter de ir para casa e voltar sob condições diferentes. Também sentiram que Hitler poderia ganhar a guerra e queriam trabalhar com os nazistas para preservar suas empresas."

Sobre sua pesquisa, Urwand disse: "Eu não gostaria que minha pesquisa fosse generalizada sobre todos os judeus, mas judeus específicos no ramo do cinema tomaram a decisão de trabalhar com líderes nazistas". Urwand descobriu evidências de que ainda em janeiro de 1938 o escritório alemão da 20th-Century Fox pedia opiniões de Hitler sobre filmes norte-americanos. A carta foi assinada "Heil Hitler".

Três estúdios – MGM, Paramount e 20th-Century Fox – só saíram da Alemanha em meados de 1940. Mas mesmo depois que Hollywood começou a fazer filmes antinazistas, diz Urwand, continuou a apagar referências aos judeus porque os chefes dos estúdios (com o apoio de grupos judeus) queriam "evitar uma argumentação especial em seu favor".

O autor situa a influência nazista na época da estreia de Nada de Novo no Front, em 1930, quando, incentivados por Joseph Goebbels, eles colocaram bombas de mau cheiro e ratos brancos soltos no cinema. Carl Laemmle, o judeu germano-americano e diretor da Universal, aceitou os cortes.

Hitler apreciava filmes que mostrassem uma liderança forte, como Lanceiros da Índia, com Gary Cooper, O Grande Motim, com Clark Gable, e A Rainha Cristina, com Greta Garbo, ou filmes em que a democracia fosse mostrada como ineficiente, como A Mulher Faz o Homem. Ele adorava Laurel e Hardy, mas Tarzan era tolo, e detestava Charlie Chaplin e seu mal disfarçado retrato em O Grande Ditador.

Em 1932, escreve Urwand, regulamentos inspirados nos nazistas permitiram que os estúdios tivessem suas autorizações revogadas se filmes considerados prejudiciais ao prestígio alemão fossem exibidos não apenas na Alemanha, mas em qualquer parte do mundo. Ele alega que Hollywood aceitou entusiasticamente as exigências de Hitler de moldar o conteúdo dos filmes para se encaixarem nas metas da propaganda nazista. "A desculpa de ignorância pode ser descartada", ele escreve. "Os executivos de Hollywood sabiam exatamente o que estava acontecendo na Alemanha, não apenas porque tinham sido obrigados a demitir seus vendedores judeus, mas porque a perseguição aos judeus era bem conhecida na época."

O cônsul de Hitler em Hollywood, Georg Gyssling, fazia visitas regulares aos estúdios e muitas vezes pedia que cenas fossem editadas para não contrariar os interesses nazistas, ou, no caso de filmes como The Mad Dog of Europe (1933) (“O cachorro louco da Europa”), pedindo que fossem totalmente abandonados. Em 1936, depois de ser avisado por censores americanos de que It Can’t Happen Here (“Isso não pode acontecer aqui”), filme que mostrava as vantagens da democracia sobre o fascismo, causaria problemas com "certos governos estrangeiros", o chefe da MGM, Louis B. Mayer, cancelou a produção.

"Hollywood colaborou e os nazistas tiveram a última palavra sobre vários filmes importantes que teriam denunciado os acontecimentos na Alemanha", disse Urwand. O historiador descobriu documentos que mostram que, para contornar as restrições de remessa de divisas, a MGM comprou títulos alemães para financiar fábricas de armamentos na região dos Sudetos. "Não é possível ser mais claro do que o maior estúdio de cinema dos EUA financiar armamentos um mês depois da Noite dos Cristais", disse.

Mas outros historiadores dão explicações diferentes. Em sua pesquisa, Tom Doherty, um estudioso da Universidade Brandeis que recentemente publicou Hollywood and Hitler, 1933-1939, encontrou documentos do Departamento do Comércio dos EUA aconselhando a MGM que uma maneira de tirar dinheiro bloqueado na Alemanha era investir em armamentos. "Talvez isso não pareça muito bom, mas em 1936 a Alemanha era um país amigo e os EUA não eram signatários do Tratado de Versalhes." Ele acrescentou: "Não vejo monstros sinistros e gananciosos. Vejo pessoas que tentam enfrentar essa bizarra anomalia e negociar de maneira que lhes fosse vantajosa. A maioria das pessoas pensava que quando Hitler alcançasse o poder ele moderaria esse antissemitismo louco e o temperamento racional alemão voltaria. Mas é claro que isso não aconteceu".

Outros historiadores, como Steven Ross, da Universidade do Sul da Califórnia, encontraram evidências de um círculo de espiões antinazistas a operar em Hollywood – financiado pelos mesmos chefes de estúdios que acatavam as exigências da censura nazista.

Ross declara: "Os magnatas que foram punidos por colocar os negócios à frente da identidade e a lealdade judaicas estavam na verdade trabalhando nos bastidores para ajudar os judeus".

Carta Capital

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