sábado , dezembro 3 2016
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Literatura: Lustosa e a igrejinha de Almofala

Conheci, outro dia, a igrejinha de Almofala, em Itarema, na região do baixo Acaraú, uma das construções mais antigas do Ceará, deixada pelos jesuítas há mais de trezentos anos. Reza uma lenda muito antiga que o Imperador anunciara uma visita à localidade, visando pacificar os índios “tremembés” que estavam em luta contra os paroaras do litoral.
Existem ainda, cerca de oito mil desses indígenas nos arredores de Itarema, espalhado pelo Acaraú, Itapipoca e outros municípios. Quando visitava, em agosto, precisamente o cacique Venâncio em sua aldeia, ainda existente embora descaracterizada, estive com um amigo de Lustosa da Costa, Everton Damasceno, que me disse:
– Ah, Ciro, o Lustosa tinha tanta vontade de fazer um trabalho sobre os índios tremembés ! Até me pediu para juntar os elementos que ele queria escrever isso: achava a história dos tremembés muito bonita.
Não sei se os leitores sabem: foram estes os primeiros índios a povoar o litoral cearense, desde a foz do Rio Ceará até as cercanias do Maranhão. Durante mais de cem anos, eles fizeram o que queriam, sem dar a menor importância às diretrizes do governo central. Até que o capitão-mor do Ceará veio à região do Acaraú impediu que os indígenas vivessem por sua conta, sem obediência à autoridade imperial.
Não conheço nenhuma obra do meu amigo Lustosa da Costa, agora no reino dos céus, que fale ou que conte a passagem dos índios tremembés por Almofala, onde eles construíram uma capelinha que as areias do mar sepultaram por 49 anos: ficaram de fora apenas a pequena torre, toda branca , e as paredes mais altas. Fui lá ver isso de perto. Quase não acreditei quando vi a igrejinha de pé, como em seus tempos mais antigos, visitada apenas pelos estudantes. Certamente Lustosa não foi lá por falta de tempo ou por outra razão qualquer que só Deus sabe: seja como for, digo aos meus poucos leitores: vão lá, sintam-se à vontade na antiga e pequena vila dos pescadores, onde hoje se instala a sede do município de Itarema, a terra do padre Aristídes e do rio das Garças, das palmeiras e das areias sem fim. Foram essas areias que sepultaram o pequeno mais histórico templo de Nossa Senhora da Conceição, “padroeira dos pescadores”.
Escrevo estas notas apenas para registrar duas coisas: a alegria de ter visitado um dos lugares mais históricos do Ceará e a certeza de estar contribuindo, cada vez mais, para o patrimônio cultural de nosso Estado. Se o Lustosa, meu bom amigo Lustosa, desejava fazer esse trabalho e não teve tempo de realizá-lo, digo a todos que estou reunindo os tais elementos para escrever o que ele não escreveu, sem ter certamente o brilho de tudo que fazia. Deus sabe dos meus limites.
Esta é a minha sentida homenagem a quem, já morrendo e sem esquecer o que viu com os olhos de criança, quis um dia voltar à Almofala, para ver de perto o que Deus queria que só visse de longe.

Fonte:www.oestadoce.com.br

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