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Cordel: Jesus Cristo, São Pedro e o Ladrão

Jesus Cristo andou no mundo/
Ensinando aos malfeitores/
Com exemplos e milagres/
Convertendo os traidores/
No fim ainda deu a vida/
Em favor dos pecadores/

Os seus exemplos nos chegam/
Através da sua glória/
Onde muitos malfeitores/
Inda alcançaram a vitória/
Como esse que eu conto/
Nessa pequena história/

Jesus fez uma viagem/
Com São Pedro certo dia/
Por necessidade entraram/
Numa grande travessia/
Para salvarem um ladrão/
Que só para o mal vivia/

Mas São Pedro ignorava/
O que ia acontecer/
Porque Jesus não lhe disse/
Para ele não temer/
No meio da travessia/
Começou escurecer/

São Pedro tremendo disse:
– Estou morrendo de fome
Muito cansado e com sede
Só o medo me consome
Se não surgir uma casa
A onça hoje nos come

Jesus disse: a tua fome
Muito breve terá fim
“Ó homem de pouca fé”
Por que és tão fraco assim?
Estás tão desanimado
Que não tens fé nem em mim?

Porém adiante viram
Uma casinha surgir
São Pedro disse: eu não posso
Assim de noite seguir
Vou ficar naquela casa
Para comer e dormir

Jesus disse: Eu vou também
Para a casinha marcharam
Lá foram bem recebidos
Boa comida jantaram
E depois em boas redes
Todos dois se agasalharam

Aqui vou fazer um ponto
Para poder explicar
Que o dono dessa casa
Vivia de hospedar
Quem passava na estrada
Para matar e roubar

De madrugada saía
Muito adiante esperava
Em um pé baraúna de
Quando o seu hóspede passava
Ele com um bacamarte
Com um só tiro matava

Depois que roubava tudo
O cadáver conduzia
Enterrava muito perto
Num cemitério que havia
E chamava de caçada
Tão grande selvageria

Na noite em que Jesus
Com São Pedro fez pousada
Na casa desse assassino
Ele foi de madrugada
E ficou na baraúna
Botando a sua emboscada

Jesus acordou-se cedo
E por São Pedro chamou
Despediu-se da mulher
Pelo homem perguntou
Ela disse: o meu marido
Muito cedo viajou

Foi fazer uma caçada
Só à tarde vem chegando
Jesus Cristo que sabia
Onde ele estava esperando
Agradeceu a mulher
E foi com São Pedro andando

Mais adiante avistaram
Ele lá de prontidão
Por detrás da baraúna
Com o bacamarte na mão
São Pedro disse: Senhor
Acolá tem um ladrão

Para a frente eu não vou mais
Pelo que lá estou vendo
Já sinto o sangue fugindo
E o coração morrendo
A vista ficando escura
E todo corpo tremendo

Jesus disse: Vamos Pedro
Deixa de tanto pavor
Lá estou vendo um cavalo
E não um salteador
Me diz onde está a fé
Que tens em teu Criador?

São Pedro disse: É verdade
A fé vale em toda a parte
Porém um ladrão daquele
Atira com muita arte
A fé não livra ninguém
Da boca dum bacamarte

Jesus disse: Mas ali
Não vejo nenhum ladrão
Saiu puxando São Pedro
Pegado por u’a mão
São Pedro fazendo força
Enterrando os pés no chão

De fato, quando chegaram
No canto tinha um cavalo
O ladrão foi tranformado
Sem sentir nenhum abalo
Jesus disse: este animal
Agora vamos levá-lo

Vai ali corta um cipó
Faz um cabresto ligeiro
Que vamos os dois montados
Porém, eu monto primeiro
Na frente e você atrás
Na garupa do “sendeiro”

São Pedro fez o mandado
Depois os dois se montaram
O cavalo era possante
Todo o dia viajaram
Às cinco e meia da tarde
Em um engenho chegaram

Era tempo de moagem
No engenho “Canta Galo”
Quando o proprietário
Foi avistando o cavalo
Bonito, gordo e possante
Ficou doido pra comprá-lo

Falou a compra a Jesus
Porém Jesus disse: não
Lhe alugo por um ano
Se o senhor tem percisão
Por cinco contos de réis
Por menos nem um tostão

O homem pensou consigo:
– O aluguel é barato
Porque o cavalo é gordo
Não precisa muito trato
No meu carrego de cana
Ele vai pagar o pato

Disse a Jesus: eu aceito
O negócio companheiro
Jesus disse: com um ano
A quinze de fevereiro
Venho buscar o cavalo
E receber o dinheiro

Assim Jesus entregou
O cavalo e foi embora
São Pedro com muita raiva
Por que ia a pés agora
Era andando e reclamando
Todo instante toda hora

O senhor de engenho que
Pôs o cavalo na cana
Debaixo de uma cangalha
Sete dias na semana
Correndo de dia a noite
Numa vida desumana

No prazo Jesus chegou
O cavalo estava em pó
Todo arranhado e ferido
Que quem visse tinha dó
Magro que só um graveto
E a barriga dando nó

O senhor de engenho disse
– Me venda agora o cavalo
Jesus disse: Não senhor
Agora eu vou levá-lo
Tratar os seus ferimentos
Para depois engordá-lo

Jesus pegou o cavalo
E recebeu o dinheiro
Se despedindo do homem
Montou-se muito ligeiro
Pôs São Pedro na garupa
E viajou o dia inteiro

Mais ou menos às seis horas
No mesmo canto chegaram
Debaixo da baraúna
Lá o cavalo deixaram
Seguiram e na mesma casa
Do ladrão se hospedaram

Estava a mulher de luto
Vendo Jesus conheceu
Disse: hoje faz um ano
Que meu marido morreu
Foi “caçar” de madrugada
Por lá desapareceu

Jesus disse: o seu marido
Graças a Deus está vivo
Pelos crimes praticados
Passou um ano cativo
Nisso ele entrou em casa
Muito triste e pensativo

Viu Jesus e relembrou
Sua sentença tirana
De passar um ano inteiro
Sem a sua forma humana
Transformado num cavalo
E mais carregando cana

No outro dia Jesus
Saiu do seu agasalho
Chamou o ladrão e disse:
– Seu esforço não foi falho
Eis aqui o seu dinheiro
O fruto do seu trabalho

Receba seus cinco contos
E vá trabalhar com gosto
Que é no trabalho honesto
Aonde o homem acha encosto
Coma o seu pão honrado
Com o suor do seu rosto

Disse isso e despediu-se
Com São Pedro viajou
O ladrão foi trabalhar
Como Jesus ordenou
Nunca mais roubou ninguém
Até que Deus o chamou

Aqui se prova que o roubo
Leva o homem à desventura
Muito sofre quem não deixa
Esta vida de amargura
Isto só faz quem entende
Deus dá a quem se arrepende
A eternidade pura

Manuel de Almeida Filho

Fonte:http://www.jangadabrasil.com.br

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