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Centenário do Rei: A cartografia poética de Gonzagão

Câmara Cascudo escreveu na contracapa de um disco de Luiz Gonzaga: "O sertão é ele". Ninguém duvida. O músico, jornalista e escritor paraense Bené Fonteles reforça a importância do ícone nordestino com o livro "O Rei e o Baião", tido como uma obra definitiva para se entender e conhecer mais o legado do músico que pôs a música nordestina no mapa cultural do Brasil no século XX. Bené virá ao Estado para lançar o livro e participar da mesa "Luiz Gonzaga: Uma Poética Musical", dia 24 de novembro, durante o 4º Festival Literário da Pipa (o evento começa dia 22).

Ele dividirá a prosa com Marcos Lopes, criador do Forró da Lua, e o pesquisador pernambucano Paulo Wanderley. A assinatura de Cascudo e outros tantos dados foram relacionados no livro – que para ele, faz parte de um processo que ele conduz desde os anos 70, quando conheceu Gonzagão. Seu livro também inspira o filme "Gonzagão: de pai para filho", que estreia próxima semana. Ao VIVER, ele falou longamente sobre seu ídolo e objeto de estudo.  

Bené Fonteles, autor do livro que inspirou o filme Gonzaga, De Pai Para Filho,é uma das atrações do Festival Literário da PipaBené Fonteles, autor do livro que inspirou o filme Gonzaga, De Pai Para Filho,é uma das atrações do Festival Literário da Pipa

O que você abordará na mesa "Uma poética musical", sobre Luiz Gonzaga, na Flipipa, em novembro?
Desde a importância da lírica nordestina do cordel, aos cultos parceiros de Luiz Gonzaga, como Humberto Teixeira e Zé Dantas, que contribuíram para a construção de uma cartografia poética que abrangia o Nordeste em seus mais ricos costumes e sabedorias, paisagens e ambiências, religiosidade e crendices, situação econômica e política como, talvez, não houve igual na musica popular brasileira.

As dezenas de parceiros de Gonzaga deram às suas melodias e recriações musicais um roteiro ou mapa cultural e espiritual do Nordeste que ainda está sendo estudado pelos acadêmicos da área de antropologia e sociologia cultural. Na verdade, em 1947, Gonzaga e Teixeira criam um movimento cultural com uma música manifesto que é "Baião" e trazem do Nordeste para o Sul a música nordestina então desconhecida e uma cultura desprezada que passou a ditar não só uma "dança da moda" mais uma forma de ver e sentir o mundo brasileiro e universal para todo país. Foi num movimento extraordinário, uma "operação inversa" como dizia Sivuca, quando era o Sul que ditava a moda e os ritmos, e ainda dita. A força do arquétipo ou ícone que Gonzaga criou juntando a figura do cangaceiro com o vaqueiro e criando um mixagem cultural única e original, foi o que ficou de forma emblemática. Só Carmem Miranda havia conseguido tal feito com sua baiana estilizada, além do seu talento, carisma e originalidade iguais ao Rei.

Como foi o processo de produção de "O Rei do Baião"? Como surgiu e quanto durou?
A vontade do livro vinha de muitos anos de pesquisa, mas se tornou muito oportuna com a criação do museu Cais do Sertão Luiz Gonzaga, em Recife, e o interesse do Ministério da Cultura em fazê-lo e incentivar através do Fundo Nacional de Cultura a feitura do livro em 2010, sem falar na proximidade do centenário de nascimento de Luiz Gonzaga este ano. Depois de tudo que tinha de discos, livros, filmes, cordéis que fui resenhando, a pesquisa e o tratamento do material iconográfico que levantei em viagens pelo Nordeste, foi importante convidar os ensaístas como Antônio Risério, Elba Braga, Hermano Viana, Sulamita Vieira e Gilmar de Carvalho, alguns com livros de teses de doutourado já publicadas sobre a obra de Gonzaga, sem falar na provocação a vários artistas para criarem obras sobre o Rei e seu universo imagético. Para editar tudo isso não levei nem dois anos, mas a pesquisa venho fazendo desde os anos 70, quando escrevi em 1971 o espetáculo "Luiz Lua, Obrigado!" para o Teatro Universitário da UFC, em Fortaleza, e quando em 1972 comecei minha amizade com Gonzaga, e ele mesmo foi me municiando de material sobre sua obra.
O que te surpreendeu durante as pesquisas para o livro? Houve algo que você ainda não sabia?
Pude confirmar a imensa generosidade de Gonzaga com as pessoas ao seu redor, incluindo desconhecidos. Deu mais de 400 sanfonas e ajudou Deus e o mundo. Ouvi muitos "causos" verdadeiros e emocionantes. Descobri imagens que ainda permaneciam inéditas ou pouco conhecidas e revelamos um Gonzaga com mais força poética e influência cultural do que imaginávamos. O livro usa o belo pretexto e sua imagem icônica para revelar um Nordeste ainda não todo conhecido e sempre muito fascinante.
Como era a sua relação com a música de Luiz Gonzaga e com o próprio?
Desde menino meu pai cearense me aplicava a música do Rei. Morei no Ceará da minha infância a juventude e não tinha como não ouvir, principalmente nas festas juninas. Quando conheci Gonzaga, em 1972, era para levar a ele o texto do espetáculo que escrevera e recortes de jornais alusivos a este. Fiz a primeira entrevista da minha vida, e foi com ele; criou-se uma imediata empatia que durou até o fim da sua vida. Fiz o projeto do Museu do Baião em Exu no começo dos anos 80, em 83 ele gravou no meu disco "Benditos" um aboio que é uma benção. Devo a ele tanta coisa que o livro e a exposição que montei "O imaginário do rei – Visões sobre o Universo de Luiz Gonzaga" em Recife, Salvador, Fortaleza, João Pessoa e agora vindo a Brasília, ainda é muito pouco. Sou coordenador do Ano Luiz Gonzaga e ainda podemos fazer muito além do centenário para que sua obra e o Nordeste sejam reconhecidos com todas as suas potencialidades.

Está prestes a ser lançado o filme "Gonzaga – De pai para filho", de Breno Silveira, sobre a relação de Luiz com Gonzaguinha. Qual sua expectativa em relação ao filme?
A melhor possível. Breno é muito bom diretor e Chambinho, que fez um dos Gonzagas, me disse que Breno deu o livro "O Rei e o Baião" para todo mundo do elenco como fonte de inspiração. Isto me deixou feliz, pois fiz o livro para inspirar outras realizações e agradar a quem ama Gonzaga e aprofundar a quem pesquisa sobre sua obra.
O quanto a identidade cultural nordestina deve a Gonzagão nos últimos 50 anos? Em que isto se nota?
Em tudo e mais alguma coisa. Ele influenciou de cabo a rabo, não só pelos compositores que se seguiram, mas pelos costumes nordestinos que sua musica propagou pelo país. Quando ele apareceu, nordestino era chamado pejorativamente de "baiano", "paraíba", "ceará". Ele deu outra dimensão cultural a este povo exilado no Sul pelas agruras das "vidas secas", elevou as potencialidades culturais máximas da cultura de um povo. Ele foi o cantor do exílio. Estes exilados propagaram sua musica no Sul ao se identificarem com toda a cartografia que ele assimilou, traçada por seus geniais parceiros. Não houve ninguém que fez tanto pela identidade cultural de uma região.
Como a obra de Gonzagão ultrapassou o Nordeste e influenciou a música brasileira em geral?
Pela via da indústria fonográfica, que ascendia, e a febre do rádio que consumia o país e mudava paradigmas como faz a televisão há décadas e agora a Internet. Gonzaga soube criar uma imagem icônica com uma sensibilidade e esperteza únicas, que deu cara relevante ao Nordeste e reforçou a identidade cultural brasileira como nunca. Gonzaga, uma "entidade universal brasileira", como preferia Mário de Andrade. Câmara Cascudo escreveu a pedido de Gonzaga um texto para a contra capa de um de seus discos, e disse: "O sertão é Ele". Precisa mais?
O que você acha do atual estado do forró?
O que está no mercado é um estado de forró em estado grave. Coisa de UTI estética. Plastificou-se, perdeu a raiz ancestral e a poética musical dos mestres. Deixou de ter a formação classica instrumental criada por Gonzaga, para agradar um gosto duvidoso musical e temático. Mas tem tanto guardião de seus mistérios e potências, que continuam a cultuar o estado original e recria-lo como o fazem o gênio absoluto de Dominguinhos, a nova geração com Targino Gondim e muitos outros que dão gosto e sabedoria  a herança de Seu Luiz que continua viva e ainda vai dar muito fruto e festa. Aliás, não gosto muito desta palavra forró, o que ele fazia e eles fazem, é música da melhor qualidade, não é um estilo, nem uma escola, é ‘Música Universal Brasileira’ que pode ser sentida e dançada em Nova York e Quixadá, com o mesmo jeito e sabor.
Outras homenagens ao centenário de Gonzagão chamaram sua atenção?
Antônio Nóbrega fez um belo espetáculo unindo musica e dança que já percorre o Brasil; Chico Cesar esta fazendo um belo show com o Quinteto de Cordas da Paraiba que também viaja; Elba Ramalho está preparando um espetáculo baseado no livro "O Rei e o Baião"; Alceu Valença gravou um CD só com repertório de Gonzaga; lançou-se uma caixa com tres CDs "100 anos de Gonzagão" com 50 gravações inéditas de vários interpretes recriando suas canções; relançou-se o tão esperado livro "Vida de Viajante – A saga de Luiz Gonzaga", de Dominique Dreyfus, a melhor biografia do Rei; muitos de seus discos estão sendo relançados pela gravadora a preços populares; dia 30 de outubro a Revista Bravo! em São Paulo entregará seu grande premio com homenagem especial a Gonzagão; dia 5 de novembro, Dia Nacional da Cultura, a Presidência da Republica e o Ministério da Cultura entrega a Ordem do Mérito Cultural em homenagem principal a Gonzaga. A Funarte criou este ano o Prêmio Centenario Luiz Gonzaga que inclusive fui um dos ganhadores. E muitas coisas ainda estão a acontecer que nem sabemos, embrenhadas pelo sertão nordestino, feitas com amor e admiração pelo seu verdadeiro Rei.

Por Tádzio França – repórter

Fonte: Tribuna do Norte

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