terça-feira , dezembro 6 2016
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Cordel: Dessa Vez subiu foi tudo

Autor:(Léo Medeiros)

Minha gente a cada dia
Mais o nó fica apertado
Já estou abirobado
Por conta da carestia.
Ontem encontrei titia
Na porta do armazém
Papo vai e papo vem
Ela pegou se queixar
E disse: vai piorar
O que já não anda bem.

Disse que a situação
A cada instante piora
A sua prima Gulóra
Se meteu em eleição;
Perdeu terra e caminhão
Na campanha de Zezé
Hoje está andando a pé
Sem terra pra trabalhar
Sem recurso pra comprar
Na bodega um picolé.

Zefinha vendeu o gado
E escondeu a quantia
No baú de Zé Maria
Cabra velho descarado;
Ele pegou ir pro lado
Do cabaré de Ceição
Gastando na diversão
Com puta nova e pitú
Quando ela abriu o baú
Num tinha mais um tostão.

Pra falar da vida alheia
Igual a tia não tem
Seja de mal ou de bem
Ela não faz cara feia;
Eu sei que com hora e meia
O que no mundo existia
De vigário a sacristia
Ela deu definição
Eu acho que nem o cão
Aguenta a minha tia.

Titia falou de tudo
Que se possa imaginar
Coisa da terra e do mar
Troço pequeno e graúdo;
Mulher chifreira e chifrudo
Devassidão e orgia
E a pedido de titia
Dei de garra do papel
E escrevi o cordel
Falando da carestia.

Ela tem toda razão
Isso eu não posso negar
Não interessa o lugar
Só se fala em inflação;
Em rádio e televisão
Eu acabei de escutar:
Salário vai aumentar
Daqui a três, quatro meses
E tudo sobe dez vezes
Antes de ele vigorar.

(…)

Antes com pouca quantia
Muita coisa se comprava
Farinha, feijão e fava
Do mercado se trazia;
Mas com essa carestia
Gente pobre já não come
Dorme e acorda com fome
Sem nada pra mastigar
Só não se obriga a roubar
Pra não sujar o seu nome.

Não conheço no mercado
Uma só mercadoria
Que da noite para o dia
Não teve o preço alterado;
Foice e cabo de machado
Aumentou que só o cão
Maxixe, bofe e sabão
Estão os olhos da cara
E o pão quando dispara
Sobe mais que foguetão.

(…)

Disparou o colorau
Bucha de arear panela
Copo de asa, gamela
E madeira pra jirau;
Pois nem a colher de pau
Escapou da alteração
Até cará do oião
Que estava tabelado
Deu um pulo avantajado
Na véspera da eleição.

Do mesmo jeito chaleira
Ferro a brasa e pinico
Lapiseira, vela e bico
Guardanapo e baladeira;
Aumentou ralo e peneira
Tampa e boca de fogão
Esteira, pilha e surrão
O preço não é o mesmo
Também subiu o torresmo
Chapéu e mão de pilão.

Subiu o pano de prato
Rosário, terço e lençol
Tarrafa, bóia e Anzol
Veneno de matar rato;
Talco, meia de sapato;
Pedra de amolar enxada
Limão deu uma disparada
Que azedou ainda mais
E as ervas medicinais
Foi grande a desgovernada.
(…)
 Fonte: leomedeirospoetapopular 
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