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Advogado diz que mensalão foi obra de Lula, que não comenta

“Lula se portou não como um pateta, mas como um omisso, que traiu a confiança do povo, dentre os quais eu me incluo”, disse o advogado de Jefferson

Pela primeira vez nas oito sessões de julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apontado não apenas como beneficiário, mas também como o mandante do suposto esquema de compra de votos de parlamentares. Advogado do delator do escândalo, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), Luiz Francisco Corrêa Barbosa questionou o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, por não ter denunciado Lula, que, segundo ele, “não só sabia como ordenou” o mensalão. Procurada, a assessoria do ex-presidente disse que não comentaria as declarações de Corrêa.

Lula esteve hoje à tarde reunido com o governador da Bahia, Jaques Wagner, com quem conversou sobre o quadro para as eleições de outubro. Ainda antes do início do julgamento, o ex-presidente disse que não assistiria às sessões do STF porque estaria “trabalhando”. Mais recentemente, sua assessoria informou que ele preferia assistir às Olimpíadas e a novelas.

Se esse é mesmo o caso, Lula não viu o defensor de Jefferson sustentar que não se poderia “afirmar que o presidente da Republica fosse um pateta, fosse um deficiente, que sob suas barbas estivessem acontecendo isso e ele não soubesse de nada”. Nas entrevistas que deu após o escândalo do mensalão, Jefferson sempre tentou afastar a possibilidade de Lula ter envolvimento com o pagamento de propina a parlamentares, sempre atribuindo a culpa ao ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Citando a edição de uma Medida Provisória que facilitou a entrada do BMG no setor de crédito consignado, Corrêa sugeriu: “Vamos parar com esse negócio de governo. Estamos falando aqui de quem tem legitimidade de projeto de lei, e é o presidente da República.” Ao pedir que o STF “converta o julgamento em diligências”, o advogado sustentou que isso permitiria ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, cumprir a lei e oferecer denúncia contra Lula, “o mandante dessa história”. “Digam ao povo que isso foi coisa do procurador-geral, que não fez seu trabalho”, afirmou o defensor, acrescentando que “Lula se portou não como um pateta, mas como um omisso, que traiu a confiança do povo, dentre os quais eu me incluo”, confessando ter votado por mais de uma vez no petista.

Mais comedido, o primeiro defensor a falar nesta segunda-feira disse que o dinheiro distribuído aos partidos da base aliada do governo era do PT e serviu para o pagamento de dívidas de campanha. O advogado Bruno Mascarenhas Braga admitiu que Bispo Rodrigues recebeu dinheiro, “mas ele veio do PT, com destinação completamente diferente do que apregoa a acusação. Foi exclusivamente para o pagamento de dívidas de campanha das eleições de 2002”, afirmou, reiterando a estratégia adotada ao longo das defesas dos reús do chamado “núcleo político” do mensalão. Segundo Braga, Rodrigues foi denunciado pelo Ministério Público com base em apenas uma testemunha, Célio Marcos Siqueira, motorista que buscou o dinheiro na agência do Rural e levou até a casa do ex-deputado.

Para o advogado de Emerson Palmieri, apontado pelo Ministério Público como tesoureiro informal do PTB, a denúncia contra o seu cliente tem como objetivo descreditar Roberto Jefferson. “Era preciso desmoralizar Emerson Palmieri, cortando assim uma das pernas de sustentação de Roberto Jefferson”, afirmou Itapuã Prestes de Messias, acrescentando que a partir de então surgiu uma lista com supostos saques feitos por integrantes do partido. O advogado também repetiu que os recursos prometidos pelo PT ao PTB eram para pagar dívidas de campanha.

Ronaldo Garcia Dias foi outro a admitir o recebimento de dinheiro por seu cliente – o ex-deputado Romeu Queiroz, entretanto, não teria utilizado a quantia repassada ao PTB em proveito próprio. Segundo a defesa, os recursos vieram da siderúrgica Usiminas e do PT, sobre o qual, ainda de acordo com o advogado, não pairavam suspeitas à época. “O dinheiro tinha, no mínimo, a aparência de uma origem sadia. O PT não era conhecido como o PT de hoje, não pairavam dúvidas. Ninguém desconfiava do PT”, afirmou Garcia Dias, que questionou a necessidade de comprar votos de parlamentares que já faziam parte da base do governo.

Em um fechamento de sessão eloquente, o advogado Inocêncio Coelho chamou de “anêmicas” as provas contra seu cliente, o ex-deputado federal José Borba. Coelho afirmou que a acusação da Procuradoria Geral da República se baseia em depoimentos de Marcos Valério e Simone Vasconcelos, que apresentariam contradições inclusive na soma da quantia supostamente recebida pelo então parlamentar do PMDB. Coelho tentou, ainda, desqualificar a instituição do inquérito, alegando que é apenas uma versão dos fatos. “Todo e qualquer inquérito, por mais cuidadoso que seja, é uma peça de ficção. Não é realidade mesma, é apenas uma narrativa em que muitas outras igualmente possíveis, mas igualmente falíveis sobre o que aconteceu fora dos autos e por isso não equivalem à realidade”, disse.

O mensalão do PT
Em 2007, o STF aceitou denúncia contra os 40 suspeitos de envolvimento no suposto esquema denunciado em 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB) e que ficou conhecido como mensalão. Segundo ele, parlamentares da base aliada recebiam pagamentos periódicos para votar de acordo com os interesses do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Após o escândalo, o deputado federal José Dirceu deixou o cargo de chefe da Casa Civil e retornou à Câmara. Acabou sendo cassado pelos colegas e perdeu o direito de concorrer a cargos públicos até 2015.

No relatório da denúncia, a Procuradoria-Geral da República apontou como operadores do núcleo central do esquema José Dirceu, o ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares, e o ex- secretário-geral Silvio Pereira. Todos foram denunciados por formação de quadrilha. Dirceu, Genoino e Delúbio respondem ainda por corrupção ativa.

Em 2008, Sílvio Pereira assinou acordo com a Procuradoria-Geral da República para não ser mais processado no inquérito sobre o caso. Com isso, ele teria que fazer 750 horas de serviço comunitário em até três anos e deixou de ser um dos 40 réus. José Janene, ex-deputado do PP, morreu em 2010 e também deixou de figurar na denúncia.

O relator apontou também que o núcleo publicitário-financeiro do suposto esquema era composto pelo empresário Marcos Valério e seus sócios (Ramon Cardoso, Cristiano Paz e Rogério Tolentino), além das funcionárias da agência SMP&B Simone Vasconcelos e Geiza Dias. Eles respondem por pelo menos três crimes: formação de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

A então presidente do Banco Rural Kátia Rabello e os diretores José Roberto Salgado, Vinícius Samarane e Ayanna Tenório foram denunciados por formação de quadrilha, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. O publicitário Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Fernandes, respondem a ações penais por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação (Secom) Luiz Gushiken é processado por peculato. O ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato foi denunciado por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) responde a processo por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A denúncia inclui ainda parlamentares do PP, PR (ex-PL), PTB e PMDB. Entre eles o próprio delator, Roberto Jefferson.

Em julho de 2011, a Procuradoria-Geral da República, nas alegações finais do processo, pediu que o STF condenasse 36 dos 38 réus restantes. Ficaram de fora o ex-ministro da Comunicação Social Luiz Gushiken e do irmão do ex-tesoureiro do Partido Liberal (PL) Jacinto Lamas, Antônio Lamas, ambos por falta de provas.

Foto: Carlos Humberto / STF/Divulgação
Fonte:http://noticias.terra.com.br

              

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