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Hoje choro com saudade o que vivi no sertão

Encontrei numa maleta
Uma só fotografia
Que a muito tempo eu não via
De chorar me deu veneta
Fiz na hora uma careta
Senti o cheiro da terra
Recordei meu pé de serra
Dentro do meu coração
Banhado de emoção
Versei minha mocidade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

Eu lembro quando pequeno
Maribondo me pegava
Eu corria e mãe tirava
O ferrão e o veneno.
Com aquele jeito sereno
A dor desaparecia
Na hora eu lhe agradecia
Beijando na sua mão
E ela com mansidão
Dava prova de bondade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

O meu brinquedo primeiro
Uma lata de sardinha
Puxado numa cordinha
Nas estradas do terreiro.
Eu passava o dia inteiro
Carregando-o de areia
Ficava com cara feia
Se alguém encostasse a mão
Brincava lá no oitão
Até matar a vontade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

As cantigas de ninar
Guardo viva na memória
Me lembro de cada história
Que ouvi papai contar.
Eu só fazia escutar
Num tamborete sentado
Quando o papo era pesado
Eu saía do salão
Que pai chamava atenção
Por causa da minha idade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

Me banhava no riacho
Só andava c’um quicé
Para descascar no pé
Manga espada e de cacho.
Gostava de raspar tacho:
De canjica ou de angu
Com uma vara de bambu
Pegava piau sabão,
Traíra, cará do oião
Pra ir vender na cidade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

No claro da lamparina
Um bom folheto se lia
Coco verde e melancia,
Princesa da Pedra Fina.
A fera de Petrolina,
O reino do mar sem fim
Também Louca do Jardim,
José de Souza Leão
Juvenal e o Dragão
E o Poder da Caridade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

A rapadura adoçava
O café mais saboroso
Aquele cheiro gostoso
Pela casa se espalhava
Mamãe no ponto deixava
Nem era forte, nem fraco
Café torrado no caco
Depois pisado em pilão
Produto da plantação
Da nossa propriedade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

Pra gente ralá o bucho
Pra todo forró se ia
Pois tinha mais alegria
Do que as festas de luxo
Sanfoneiro no repuxo
Tocava sem acanhes
Jackson, Noca, Marinês
Zé Calixto e Gonzagão,
Xote, xaxado e baião
Só música de qualidade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

Andava mais de uma légua
Pra assistir mamulengo
E nem esquentava o quengo
Montado na minha égua!
Eita que tempo pai d’égua
De ciranda e roladeira
De pega, barra-bandeira
Bola de meia e pião
Não faltava diversão
Na minha localidade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

Tornei de novo a olhar
Pra foto já desbotada
Aí eu vi a estrada
Que dava pro meu lugar;
Resolvi me deslocar
Pra casa que pai morava
Só vi que dela restava
Uma tapera no chão
Eu disse: é ilusão
Mas o pior que é verdade
Hoje choro com saudade
O que vivi no sertão.

E sei que quando voltar
A terra que fui criado
Vai estar tudo mudado
Penso que vou me espantar;
Na hora que eu procurar
E não encontrar a bola
Os colegas de escola
Que já não sei onde estão
O cachorro tubarão
Cheio de felicidade
Perguntarei pra saudade
Por que deixei meu sertão?

Léo Medeiros
Sobral, 14 de julho de 2006.

Poema presente no CD Minha Terra, Meu Sertão
de Léo Medeiros.

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