terça-feira , dezembro 6 2016
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Brasil do lado de cá

Brasil do lado de cá
Tem pé de serra verdoso,
Mês de janeiro chuvoso
Cantiga de sabiá,
Tem carreira de jumento,
Relâmpago com pé de vento
Revirando a plantação,
Gerimum com flor aberta
Abelha entrando e saindo,
Lençol de neve caindo,
Cobrindo a vegetação

O verde do milharal
Festejo de passarinho
Galado fazendo ninho,
Na flora do capinzal
A Curimatá desova,
No cheiro da água nova
A saúva se alvoroça,
A Mulher convida o filho,
Pra ir descascar o milho,
Que o velho trouxe da roça.

O Brasil que eu conheço
É feito de poesia,
Forró, leilão, cantoria,
Reza de novena e terço.
Cuscuz com leite de gado,
Xerém, mingau, milho assado,
Nas noites de são João,
Fava verde com toucinho,
Preparados na tigela
Qualhada feita em panela
Na quentura do fogão.

Eu sou de um Brasil viçoso
Onde a Mulher tem ciúme,
O corpo exala o perfume
De manjericão verdoso,
Faz amor, pra fazer filho.
A família grande é brilho,
Na forma da criação,
Pra tudo Deus dá um jeito,
É esse o Brasil perfeito
Na minha concepção

Meu Brasil é conhecido
Pela sua valentia
Cabra de couro encardido
Pelo sol do meio dia.
Quando Deus afrouxa as águas,
Vão lavando as nossas magoas
Ai começa o festejo
Recomeça a plantação,
É bode dando pinote,
Cobra engolindo cassote,
Na beira do cacimbão.

Eu não olho pro Brasil
Que chora e que se acovarda
Brasil que veste uma farda
E se arma com fuzil
Eu vejo o Brasil da enxada
Da terra seca rachada,
Onde o sofrer é um só.
O caboclo nem se coça,
De dia trata da roça,
De noite dança forró.

Eu vejo o Brasil da vida,
Que o cabra dorme de porre,
Onde Criança não Morre,
Vítima de bala perdida
Brasil de valeriodultos
De discurções e insultos,
Nas assembléias do Home,
Esse Brasil eu nem ouso
Eles cuidando do bolso
E o Povo morrendo a fome!

Eu sou do Brasil da sela
Feita de couro curtido
Dos gemidos da cancela
Cabana de chão batido
Um Brasil que dorme e sonha
Que o vaqueiro tem vergonha
De ser chamado a tensão.
Luta sábados e domingos,
Mas se orgulha dos pingos
Do suor que cai no chão.

Brasil de sangue na veia
Vermelho cor de bonina,
Que namora a lua cheia,
Bebe água cristalina,
No ribombar dos trovões
O trinar dos azulões
Anuncia a enxurrada
Homens de braços sadios
Que recomeçam os plantios
Na primeira invernada.

Sou do Brasil do brejeiro
Que morre pela verdade
Que não gasta o seu dinheiro
Com diploma e faculdade
Fala um dialeto só,
Orgulha-se do Cafundó
Lugarzinho onde Nasceu,
Quem vem do lado de lá,
Passou pro lado de cá
Morre encima do que é meu.

Autor: Onildo Barbosa

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